Sobre resignificação da bebida alcoólica

Bebida alcoólica sempre esteve presente na minha vida, mesmo antes de eu ingerir um gole sequer. Esteve presente também em um contexto maior, antes mesmo de eu nascer, tendo (nas duas partes da família) parentes próximos alcoolistas. Raras as vezes que as festas de família não incluíam bebidas. Com mais ou menos 4 anos de idade, eu quase virei um copo de whisky pra dentro da minha boquinha, que mal suportava o gás do refrigerante, o que foi piada durante muito tempo. Mas era evidente que eu tinha uma curiosidade instalada, que eu, honestamente, não seria capaz de distinguir e identificar quando começara. Eu me lembro que cerveja era uma bebida típica nos finais de semana em casa, nada em excesso, mas o suficiente pra despertar em mim uma vontade de experimentar aquela bebida proibida que minha mãe usufruía enquanto cozinhava. E que fique claro, eu não estou e não acusaria meus pais ou parentes como culpados da minha história com relação ao álcool. Acredito que o ambiente tenha sim favorecido de alguma forma, mas fica claro que intrinsecamente isso já estava em mim e que, se tornaria minha responsabilidade, cedo ou tarde, aprender a lidar com isso, tendo em vista que é uma droga lícita presente em vários outros cenários (e mais tarde ainda aprender a lidar com as ilícitas, mas vamos manter o foco aqui).

E quando você realmente começou a beber? Por incrível que pareça (e pode não parecer relevante, mas eu espero conseguir explanar mais adiante), eu tive contato com cigarro antes de efetivamente ter bebido o suficiente para ficar bêbada. Meu pai era fumante, então o acesso ao cigarro era muito fácil também. Eu fumei a primeira vez com 11 anos e o mais “engraçado”, é que eu tanto era uma criança, que em um final de semana eu roubei um cigarro do maço do meu pai, escondi em uma caixa de boneca, e quando o final de semana passasse, eu finalmente estivesse sozinha, eu experimentaria. Bom… eu ODIEI cigarro! Ah, então você não fumou mais, certo? ERRADO! Eu fumei na tentativa de fazer meu corpo se acostumar com aquilo. Mas o texto “néra” de bebida? Sim, mas já identifiquem uma CRIANÇA procurando por um passatempo meio esquisito, que vai fazer sentido (pelo menos, pra mim, faz).

Então, mulher? Quando você começou a beber? A primeira vez que eu fiquei bêbada foi com 16 anos. “Nossa, Naná, jurava que você ia falar uns 12 KKK”. Então, mas lembra que eu tava ocupada lá tentando gostar de cigarro? Cigarro me decepcionou drasticamente. Mas a primeira vez que eu bebi litros de cerveja, eu me senti no paraíso! O fato de eu não ter conseguido o que eu queria com cigarro, fez aumentar muito minha expectativa com relação à bebida e consequentemente, minha satisfação com a mesma. Eu nem sabia o que eu procurava com cigarro, mas eu queria saber o que levava as pessoas a fumar. Eu não sabia o que esperar de bebida, mas queria entender porque usavam tanto. E eu percebi que a bebida me tornava menos tímida (e eu era muito), mais alegre, mais sociável, divertida… então a bebida se tornou uma oportunidade de uma vida um pouco mais animada…

Eu percebi que nem tudo eram flores nos meus dois primeiros relacionamentos amorosos. No primeiro, eu já tinha tomado um pouco de consciência do quanto exagerar na bebida me fazia mal. Então foi a minha primeira tentativa de não beber mais: não beber porque meu namorado não gostava. É um pouco mais complexo do que isso, mas eu me convenci de que estava fazendo isso por outra pessoa (e pra não acabar sozinha). E eu não sei se eu preciso explicar porque isso não deu certo, mas vamos colocar dessa forma: qualquer coisa em mim que me fazia beber em excesso, estava em mim e não no outro, logo, tentar parar de beber nessas circunstâncias era inútil.

Meu segundo relacionamento foi um pouco mais conturbado, eu agora não só tinha consciência do efeito do excesso de álcool em mim, como me deparei com uma agressividade e sensibilidade bem diferentes do que quando eu estava sóbria. Isso não acontecia (ainda) no contexto “família” e nem “amigos”. Eu era (e ainda sou, um pouco, por mais que não pareça) extremamente travada no que diz respeito a externalizar sentimentos, fosse verbalmente, fosse com qualquer tipo de demonstrações, etc. A bebida era um caminho de conseguir expor meu descontentamento sobre aspectos do meu relacionamento, que eu não tinha ainda descoberto ferramentas para lidar ou discutir. Minha imaturidade emocional adicionada à bebida resultou em caos, por vezes. Despertou em mim uma agressividade descontrolada em momentos inoportunos, auxiliou com que eu desenvolvesse um sentimento de vitimismo (porque eu não me responsabilizava pelas coisas que eu expressava bêbada, não era “eu”) e gerou muita confusão sobre só conseguir acessar alguns sentimentos com uso de álcool.

Eu também criei o hábito, bem cedo, de beber sozinha. E se bebida era pra me fazer socializar, me tornar menos tímida… para quê beber sozinha? E aqui foi onde o problema maior se instalou (eu recebi um comentário bem pertinente sobre os storys em que eu trouxe esse assunto à tona, de que não é o vício em si que leva uma pessoa a cometer suicídio, mas que o vício é um aspecto sintomático de um problema maior, que eu concordo completamente e é isso que eu tenho em mente como objetivo de contar tudo isso). O beber sozinha me trouxe a ideia de que eu precisava de algo externo (no caso a bebida, mas poderia ter sido o cigarro, poderia ter sido maconha, outras drogas, poderia ter sido café, açúcar, carboidrato) para me sentir bem comigo. Eu conseguia acessar todos aqueles outros sentimentos, ou conseguia afastar outros, a bebida era útil para relaxar meu corpo e minha mente de coisas que eu preferia evitar trabalhar em mim. Nessa época eu já tinha sintomas de depressão, mas eu estava longe de admitir a mim. E quando eu falo sobre a dificuldade em admitir alguns comportamentos, é porque existia um bloqueio enorme em identificar sentimentos e pensamentos extremamente autodestrutivos. Eu sentia que eu devia ser mais bonita, mais inteligente, mais poderosa, mais magra (talvez eu escreva sobre isso um dia), e beber sozinha era uma forma de tentar calar todos esses pensamentos, afastar partes minhas de mim, não entrar em contato com coisas que me assombravam. E eu aprendi que não dá pra fazer isso. Isso cresceu tanto durante anos, até eu realmente cair em uma depressão mais forte, onde nem a bebida podia me fazer relaxar, nem por um segundo.

SE VOCÊ JÁ TEVE DEPRESSÃO E/OU IDEAÇÃO SUICIDA, ESSA PARTE PODE SER UM GATILHO, ENTÃO NÃO LEIA. PULA ESSE PARÁGRAFO.

Eu pensei muito, mas eu não conseguiria escrever sobre o dia que eu tive ideação suicida, mas eu posso descrever um pouco sobre o quão assustador é, e o quão gradativo foi. E claro, como a bebida se estabeleceu nessa conjuntura. Eu fiquei, pelo menos, 6 meses estranhando muito a minha própria imagem, pensamentos e comportamentos. Era como não conseguir acordar de manhã, levantar mesmo assim, fazer tudo no automático, me cobrar incessantemente por isso, literalmente ver o mundo com menos cores, não sentir entusiasmo com nada, conversar por praxe, rir por conveniência, não querer voltar pra casa e junto com tudo isso, me preocupar muito com tudo e ficar extremamente estressada com absolutamente tudo que saia do meu roteiro de dia “normal”. Eu tinha cada vez mais pensamentos de que minha vida não tinha importância, porque seria tudo automático até eu morrer, então, que eu morresse logo. E eu me convencia com “tá tudo bem, eu não vou me matar, só que eu não me importaria se eu morresse hoje”. E em outros momentos “mas se eu quisesse me matar, como eu faria?”. Nesse momento, eu planejava minha própria morte sem nem me dar conta. Eu comecei a beber muito. Muito mais do que o meu normal, que já era muito. E vale dizer também, que durante todo esse tempo, inúmeras coisas aconteceram pra que isso se agravasse. Pensamentos como esse que só me ocorriam uma vez na semana, começaram a aparecer mais vezes. Mais ideias sobre meu próprio suicídio surgindo enquanto eu escovava os dentes, tomava banho, caminhava para o trabalho, ia dormir… Até o dia que eu comecei a sonhar com a minha própria morte. Eu postava em redes sociais músicas como Mad World “The dreams in which I’m dying are the best I’ve ever had” (os sonhos nos quais eu morro são os melhores que eu já tive), Migraine “Sundays are my suicide days” (domingos são meus dias suicidas), e aqui fica um adendo: se vocês virem alguém postando qualquer coisa desse tipo, fiquem atentos sim! Nossa mente pede ajuda mesmo sem a gente notar, de formas variadas. Sonhar com a minha própria morte foi o ápice do fundo do poço que eu estava (isso não faz sentido, eu sei). Eu fui tomada por um medo imensurável de mim mesma. Eu era ali, a maior ameaça pra mim. A pior companhia também. Eu bebia. Às vezes eu bebia pra matar essa parte horrível de mim. Às vezes eu bebia pra matar a parte boa.

Eu não estou me expondo à toa, mas tudo que eu vivi e o que eu tenho observado de pessoas próximas ou não a mim, é o prazer do descontrole quando se está sob efeito de alguma substância. É o precisar usar algo para relaxar o corpo, quando eu desconheço formas saudáveis de lidar com os meus próprios conflitos internos. É o querer fugir do fato de que eu preciso mudar de emprego, de relacionamento, de costumes, mantendo sempre presente alguma coisa que me afasta desse enfrentamento. É o tornar natural a dor de cabeça do dia seguinte, os claros sinais do corpo de que aquilo é demais, de me prejudicar, me ferir a troco de uma vida falsamente mais leve e divertida. E quando tudo isso fica demais e não dá pra fugir, existe um risco eminente de tentar usar álcool na atitude suicida. E esse é o maior motivo pelo qual eu quis escrever sobre álcool específicamente.

Sobre resignificação.

A primeira vez que minha psicóloga me disse isso, eu quase ri na cara dela, o que não ia ser muito agradável pra ninguém, convenhamos. Eu achei que fosse só um nome bonito pra “parar de beber”. Eu voltei a tentar parar de beber, dessa vez com menos sucesso ainda. Eu claramente não bebia tanto quanto antes, pelo menos, não sempre, mas eu ainda bebia frequentemente. Era difícil estar em um ambiente com bebida e não beber! Meu “parar de beber” não durava uma semana. E isso aqui vai parecer discurso de convertido da igreja universal, mas não é! Calma! Terapia me ajudou muito, mas ter feito as pazes comigo, trazendo uma fé pra minha vida, foi essencial. E não virei crente, na verdade eu conheci um pouco sobre Xamanismo, e fez sentido pra mim. Mas poderia ter sido QUALQUER COISA, poderia ter sido catolicismo, umbandismo, yoga, música, pintura, poderia ter sido minha própria faculdade, jardinagem, etc. Qualquer atividade ou ritual que te ajude a se conectar com você mesmo, é essencial. Eu conheci a maior felicidade da minha vida o dia que eu consegui entrar em contato comigo, com todas as partes. Que eu consegui me perdoar pelo mal que eu me causei, que aceitei que eu não sou perfeita, que eu realmente me enxerguei e me percebi como ser humano incrível mas também falho.

Uma mulher que eu sigo há muito tempo e que sempre que eu posso, cito nos meus textos, a Flávia Melissa, já contou várias vezes sobre como ela se libertou de algumas drogas recreativas, do quanto isso gerou também mudanças no seu círculo social. Eu sempre tive receio disso, como parar de beber, quando a maior parte dos meus amigos bebe? Como não beber em uma festa ou balada?

A resignificação foi autoexplicativa no momento que eu tive a chance de usar o álcool, em um dia que fugir de mim seria delicioso demais, mas eu não quis! E como chegar nisso? Como eu disse e acreditando na individualidade de cada um, eu não consigo criar nenhum tipo de caminho pra salvação, mas o dia que essa conexão com você mesmo acontece de verdade, ela se torna uma energia que se irradia, é quase palpável. Eu chamei isso de deus interior (o que é só um nome), poderia ser o que chamam de felicidade, de gratidão, de amor. Esse sentimento é como um pilar, é transformar você mesmo no seu próprio lar, estar confortável com quem você é. Automaticamente o mundo todo entra em sintonia. Esse sentimento faz parte de um autoconhecimento (que, no meu caso, eu adquiri boa parte em terapia) que consequentemente eleva também sua autoestima. Com tudo isso mais desenvolvido é extremamente difícil, quase impossível, querer sair disso. Ficar bêbada me leva à uma situação oposta dessa conexão, é quase como me perder dentro de mim de novo. Então, talvez resignificação não seja parar completamente de beber, mas procurar um meio saudável de lidar com o que me faz perder o meu autocontrole, com o que me faz querer ficar distante do que me incomoda em mim e bebida se torna um segundo plano, algo que eu vá usar sem perder a noção do que é limite para mim. Eu estou nesse processo de entender que, eu nunca soube o que era limite, porque eu nunca tinha realinhado a minha pessoa às minhas estruturas física, mental e espiritual (repetindo que espiritualidade não é religião).

Eu não entendi completamente a resignificação, pelo simples motivo de que eu ainda tenho muito trabalho de autoconhecimento a ser feito. Eu ainda escorrego em excessos de álcool, manias, redes sociais, compulsões por comida, etc. Mas isso foi algo incrivelmente novo pra mim, foi estar em um estado de consciência muito diferente de tudo que eu tinha sentido até hoje. Eu consegui beber muito pouco e me satisfazer por gostar do sabor da bebida, eu consegui não beber quando realmente isso me faria muito mal e consegui identificar ter passado do meu limite, em um estado de embriaguez que, antigamente, seria “só o início”.

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Vita Lineae

Se estou certa de quem sou, que outros olhos eu precisaria encontrar para ter coragem de ser sincera?

Eu finjo pra mim que preciso me alinhar aos desejos mundanos. Enquanto minha alma anseia por paz.

Onde está meu coração enquanto eu busco, incessantemente, engolir todo sentimento que já não tem espaço lá fora? Eu quase pude ouvir, novamente, o som de sua voz ditando o toque das minhas mãos contra as suas. Eu pude declarar, com toda energia que demanda, o que eu possuo como afeto, enquanto pequena parte remota do passado, do quanto admiro e anseio por teu bem se espalha gentilmente, como também é aceito. Calamidade seria se valor nenhum tivesse, se fosse quase como gritar com o rosto e os olhos fitando a parede fria, numa sala aberta demais pra produzir eco, enquanto o único retorno que tenho, é minha própria voz que suplica ser ouvida por outros ouvidos que não os meus. No fundo é isso. Mas temo que continue sendo essa voz que só existe na minha cabeça, que por vezes se despede como lágrimas, outras sangue… Mas não é culpa tua. A culpa nem é do desejo, ou do medo dele. Toda morte implica mudança. E tudo em que existe vida, incontestavelmente conhecerá o gosto da morte. O que justifica uma vida bem vivida? Talvez afeto. Enquanto penso em vida como um montante de acontecimentos; uma relação, um projeto… basta existir afeto ou é necessário que o conheça? Afeto não demonstrado deve ser como a pele de um abortado, é só metade vida que não conheceu o mundo… Quase um projeto que deu de cara com a morte antes mesmo que pudesse ter voz. Eu pensei que talvez, e só talvez, isso seja se matar lenta e gradativamente. Viver com medo, evitar as rejeições, não ter voz… não ter voz. Não ter voz é afogar a si mesmo dentro de si. Até meu corpo morrer, eu preciso encontrar uma forma ter vida. Talvez seja nessas linhas. E delas não me envergonho nunca. Eu estarei viva enquanto qualquer par de olhos percorrer cada uma dessas linhas.

Thayná Lofiego

Vale Indigentiam

A vida se faz do acreditar nos ventos. Eu sempre senti que algo, além de tudo aquilo que se vê, de tudo aquilo que me toca, poderia transformar grande parte do meu ser em paz.

Eu aguardei, por ora, sentada numa grande janela de uma casa antiga. Por ora, caminhando pelas ruas da mesma cidade que permeio desde que existo. Por ora, contando as horas que faltavam pra dormir. Por ora contando os minutos que me despiam o sono, enquanto o teu nome se espalhava como eco em todos os buracos de meu peito. Eu deveria crer nos ventos. Por ora, eles escancaram a falta de algo que ainda não se foi, como fosse a última vez, que por vezes… simplesmente é. O vento carrega o tempo, leva com ele o peso das horas. Por ora, leva o peso que envolve meu peito pela lembrança de um abraço. Por ora, traz com a leveza de uma correnteza, cada lembrança, sem aviso, como uma tempestade sem trovão que se abre na mente e jorra cada fio de pensamento inundado de sentimento contra meus tímpanos. E as vozes que eu escuto cantam as canções que eu danço sozinha no escuro.

Eu aguardei, por ora, caminhando depressa, tentando engolir cada partícula de ar que me mantivesse viva, que me ajudasse a nadar só pra mergulhar em mais um dia que eu desejaria estar morta. Por ora, sorrindo aos ventos e encharcando minha pele do calor ameno do sol, encarando as lágrimas que eu nunca derramei como provas de missão cumprida, que massageavam meu ego de ternura por cada memória. Enquanto tua pele nem ao menos se preocupava em apagar o calor da minha.

Eu aguardei, por ora, tão próxima ao chão gélido. Por ora, deitada contra as paredes. Por ora, carregando a insônia por todos os lados da cama. Por ora, trazendo peso aos travesseiros. Por ora… eu ainda aguardo. Eu espero os ventos trazerem uma forma concreta de rabiscar um adeus que tu nunca escrevestes. Me ensinastes a diferença entre sentir falta e sentir saudade, teoricamente. Enquanto eu canso de esperar, eu busco ferramentas no universo, que sustentem a solidez de tudo que se petrificou em saudade. Enquanto aguardo, enquanto canso de esperar, encaro o beco sem saída, o medo da falta, construo e moldo a falta do adeus em meios rabiscos confusos e perdidos. Preencho a falta escrevendo sobre o que sei sobre saudade. Declaro meu adeus assim, por ora.

Thayná Lofiego

“Eu prefiro ser pleno a ser bom” Carl Jung

Eu acho que tá bem perto de fazer um mês que eu não tive mais nenhuma crise, nesse quase um mês eu experimentei de novo a sensação de prazer em estar sozinha e poder refletir sobre algumas coisas, o que é praticamente impossível com a depressão. Dentro desse espaço de tempo eu também experimentei ficar triste, somente triste, como um dos tantos sentimentos naturais e até saudáveis que acontecem de vez em quando, e no meio desse sentimento ainda coube espaço pra me sentir grata, por finalmente voltar a distinguir o que se passa aqui dentro. Fota

Um mês parece pouco, mas foi suficiente pra eu entender que meu refluxo estava diretamente ligado às coisas que eu não admitia pra mim. Passar a aceitar meus sentimentos e pensamentos, principalmente os que me assustavam, diminuiu minhas crises em 90%, sem exageros. Então, eu aprendi a viver intensamente qualquer um desses sentimentos, e não tentar fugir deles.

Entendi, com auxílio de um amigo, que às vezes só conversar com alguém, sobre qualquer coisa que me incomodava podia me fazer enxergar aspectos de uma perspectiva diferente e além do descarrego, perceber que o fato em questão não precisava tomar grandes proporções.

Eu lembrei que eu gosto de passar um tempo comigo, que a maior paixão da minha vida é estar comigo e ter a sorte de sentir o sol e o vento na minha pele, que isso faz eu me sentir mais viva do que qualquer outra coisa.

Eu voltei a sentir um prazer enorme em tocar violão e ouvir o som da minha própria voz, independente se minha afinação estava impecável ou não, eu reaprendi a canalizar o que eu sentia por meio da música, porque o que mais me assustava naquele estado depressivo era não sentir absolutamente nada por música.

Aprendi que não ter algo que eu queria muito, e ter um “não” ali no meio do caos que tava aqui dentro, foi um estímulo e tanto pra eu me mover e querer sair de onde eu estava. Despertou uma agressividade imensa em mim, que me deixou atônita sem ideia do que fazer e que no fim se transformou em força. Foi um movimento diferente de todas as outras pessoas, que me deu pela primeira vez vontade de verdade de me transformar e me melhorar.

Com isso eu entendi que às vezes as pessoas passam tão rápido por nós, e que é importante se apegar ao que elas nos ensinam e não a elas necessariamente, e que nem todo mundo vai agir como nós esperamos, e está tudo bem, sempre. Deixar as pessoas irem embora é tão importante, senão mais importante, quanto deixar que elas entrem na nossa vida.

Notei que eu passei tempo demais procurando formas de perdoar as pessoas que eu achava que deveria perdoar, quando na verdade, o trabalho que eu realmente deveria ter era perdoar a mim e somente isso. Praticar autoperdão me fez colocar a mim como responsável da minha realidade e deixar a responsabilidade do outro simplesmente ser dele.

Substitui os pensamentos sobre as pessoas que se afastaram de mim, pela satisfação de ter reconquistado amizades que a minha falha de comunicação havia deixado pra trás, com vários assuntos incabados e não resolvidos e descobri que eu poderia me orgulhar por ter me tornado um pouco mais humilde durante esses anos.

Comecei a sentir que o movimento de tudo acontece sempre de dentro pra fora, que cuidar dessa energia boa que hoje eu sinto bem no centro do peito todas as vezes que eu me trato bem, é essencial pra eu também tratar bem tudo aquilo que me cerca. Estar em paz comigo é condição fundamental pra estar em paz com o resto do mundo.

Tive que admitir pra mim, que embora eu diga o contrário, eu sempre tive uma necessidade enorme de agradar a todos, eu sempre desejei ser querida, especial e ainda é um processo me contentar com o fato de que eu não vou, eu não posso agradar todas as pessoas. Ainda é um processo aceitar que nem todo mundo quer me salvar, que nem todo mundo quer ser salvo por mim e eu acredito que isso tornará minhas relações mais saudáveis um dia.

Me lembrei de como é a sensação de não ter vontade de sair da cama de manhã, só por estar com sono e cansada e não por não sentir prazer por nada que eu faria durante o dia, agora é muito mais fácil acordar um pouco mais cedo, me alimentar bem e fazer exercício físico pra diminuir minha tensão sobre a expectativa de mais um dia.

Ficou muito mais fácil entender que a vida não é o “chegar lá”, o “ter sucesso”, “conseguir algo”, porque a vida não se faz da conclusão das coisas, mas sim de TODO O PROCESSO pra concluir algo. Todo o processo de manter alguma coisa viva, seja um relacionamento, seja uma profissão, seja academicamente. A vida se dá durante as tentativas de resolução dos problemas que surgem no meio do caminho. E dá sim pra ser grato por todos eles, quando a gente se permite enxergar cada aprendizado adquirido com eles.

Descobri que é assustador sentir que está no fundo do poço, que é extremamente difícil querer sair de lá, mas que, pelo menos, para mim foi essencial pra que eu pudesse me enxergar, pra que eu tivesse mais cuidado com o que eu realmente preciso, porque lá não existe amor por nada, não existe auxílio, não existe o externo, é uma situação onde olhar pra si mesmo se torna uma tarefa dolorosa e não sobra nada além da certeza de que você precisa recuperar teu amor próprio, que você precisa confiar em você mesmo, como num dos textos que eu mais gosto na vida que exprime que não importa o quão imenso seja o universo, não existe ninguém que vá te salvar de você mesmo!

Eu ainda tenho mil coisas que eu preciso trabalhar, que eu vou trabalhar em terapia, que aliás eu ainda nem sei como agradecer à minha psicóloga por tamanha generosidade que ela tem comigo, nada disso que eu escrevi aqui surgiu do dia pra noite e muita gente que leu a minha lista “que caralhos eu aprendi em 2017” no final do ano passado, vai achar que ambos foram escritos por pessoas diferentes. E eu também acho! Não sou perfeita, não estou livre de defeitos, mas estou aprendendo a enxergar tanto o que há de belo em mim, quanto o que eu não me orgulho tanto, como o maravilhoso Jung já diria “Eu prefiro ser pleno a ser bom”. E hoje eu quero ser inteira!

Thayná Borges
27-04-2018

 

Tenebris Lux

A maior parte do silêncio é comunicação. O vazio é parte, e toda parte do vazio é repleta de conteúdo enigmático. Nunca tive fascínio no que era apresentado de tão bom grado que deixava a imaginação e criatividade postas de lado. Existe um quê de curiosidade em meu ser que tinha paciência em apreciar cada distância entre ignorância e paixão. Existia um quê de pureza em cada dote que me era herdado, e existia um grau de ruptura do mesmo cada vez que a realidade açoitava parte dos planos, dos sonhos, dos gostos e da carne viril que banhava meu corpo de saliva humana e pestes imateriais.

A morte era próxima demais para uma pauta sem inutilidade. Era demasiadamente carregada de sonhos, esperanças e finitude bárbara que circulava em espiral de contingente magnitude.

Escolhe uma morte e contente-se com ela. Escolha uma vida e aprecie cada chance de mudar de rumo. Persista em cada caminho que o coração clama em pulsão para ser traçado. E se descubra ainda vazio, ainda em medos infantis e persistência tardia de inúmeros desregramentos que insistem em enrijecer os pelos por toda alma. O apêndice de tua alma no corpo enrijece a crença de seriedade sobre o mundo material, até certo momento que é conhecida e reconhecida a maleabilidade e inconsistência do mesmo mundo.

Seja mundo, deus e sol de toda crença que cerca o invólucro de teu ego, mantendo a fé em todo desconhecido da humanidade que somaria à tua própria existência a certeza, evidência e essência.

Sopre o fogo como se banha o corpo na esperança de cessá-lo e encontre-se ainda inteiro, entre destroços do espaço, entre restos de pele, entre sangue esquecido nas vestes brancas. Clame pelo mínimo de amor que o mundo é capaz de fornecer e alimente o espírito, para enfim, esvaziá-lo em doses maiores de amor.

Insista, reflita, descubra e conheça-te a ti mesmo. E nada no mundo pode romper essa carga, esse peso de reconhecer teus próprios pecados e apropriação dessa energia emanada que retorna em altas doses de carma.

No fim, é só fim. Estagnação. Ruptura. Limbo. Conheça-te a ti mesmo e aceite teu próprio fim. Mortalidade é também humildade. Fim é conclusão. Aceitação. Todo anseio na morte parte de vida não vivida. A vida simples é vida ativa.

Thayná Lofiego

Dies Solis Mortis

Pés descalços cantam uma poesia entre concreto e poeira, carregam em direção à gravidade segredos que pendem durante anos entre esperança e desconforto. Já tive devaneios sobre um corpo que desejava minha reação no momento. Já quis meus pés em outro mundo, mesmo quando tudo se encaixava perfeitamente. E quando você dança tão próximo da morte, não existe mais medo do desencaixe, do irreal, da incerteza. Seus pés flutuam, seu peito pesa, seus olhos queimam e cada parte da sua cabeça é destruída em pequenas explosões que você não ouve, seus ouvidos ecoam o silêncio desconfortante da solidão. Minha dificuldade era ansiar demais teu contato, mas nunca me sentir digna; era querer resgatar na minha mente memórias que residiam no meu peito; tentar camuflar o simples com minhas mazelas falsas, fazendo discurso do belo, do simples e do perpétuo inócuo que nunca existiu em mim. O destino nunca foi um berço, era uma cama confortável que eu insistia em trocar os lençóis antes mesmo de aprender a ficar de pé. Eu caía dessa mesma cama milhares de vezes, me arrastava para longe, e sempre era puxada de volta. Espero encontrar novamente a morte, dançando, enquanto meus pés descalços cantam poesia no ar e na sua imensidão.

Voluptatum Cupio

meu corpo, minha casa, meu seguro, meu medo. eu sinto falo, freio, falo… sinto! um pedaço de carne entre minhas mãos, lábio entre meus lábios, encaixe perfeito, a abertura que entre minhas pernas causam calafrios, calor, suador, dor, desejo, prazer. insucesso frequente, lembrança de nada que se vê a olhos nus, a estrela quente que dos céus queima nossos pés, que me rodeia de sonhos e esperanças, perpetua mistério e certeza do vazio. eu ouço, calo, analiso… aplico valor ao primeiro abraço da manhã, ao último beijo com esperança de longos períodos sombrios de vazio. conto cada pegada de tinta das costas, braços, toco, com toque abro, olhos, mãos, dedos e alma. espero, rodeio, durmo. seis horas de sono inoportuno, paralisia do sono, cansaço do descanso. ouço, vejo, sinto. oro, rio. despidos corpo e alma, perdidos. desenhos, músicas, símbolos, os filmes que vivi não admitindo que se encaixando, como pernas que entre as minhas movimentam suave ternura, coragem, instinto, libido. sonho… um fio de lagrima que banha meu peito, um fio de cabelo que sustenta sonhos, outro que se aplica à vergonha, tesão e fissura acompanhados do receio. do toque mais singelo que despedaçada, cria, recria e destrói. instinto de vida que anseia morte. afundo, me ergo, construo o mundo, o reduzo a pó, construo castelos de areia, derrubo as paredes, com sopro, com socos, chutes singelos… a luz que me cerca, se esvai conforme morro.