Respondere Ad Omnia

Processos não retilíneos criam subetapas dentre as quais quedas, recaídas, padrões de comportamento e arrependimentos são um convite a lembrar de si mesmo. E a vida em sua complexa imensidão, e inquestionável desequilíbrio, transforma tudo – mesmo com passado, presente e futuro – em um quase eterno atemporal momento. Quase tudo – cada faísca e até mesmo cada expectativa – não passa de um momento. E num piscar de olhos eu estou em dois lugares ao mesmo tempo, e em dois tempos em um único lugar. A capacidade de criar, moldar e refazer lembranças com uma mudança de perspectiva, pode mudar não só o futuro, mas também o passado. Entender que cada detalhe do passado é resposta para um futuro incerto, causa a estranheza de saber que o fim se deu enquanto tudo começava. E que mesmo depois do final, é possível reviver tudo, de uma vez só, com um olhar novo. E, talvez, recomeços sejam isso: um olhar novo sobre as mesmas coisas. Os mesmos processos.


Não foram os anos de vida que me deram a capacidade de transformação, mas sim um instante, no momento certo, com uma correção de olhar. E de sentir.


A dor sempre será minha companhia mais sincera. A menos cautelosa e a que exige a transformação de anos em milissegundos, porque não existe tempo quando a dor toma todo o espaço do seu corpo e todo o seu redor. O espaço tempo é apenas espaço. Apertado, dolorido, sufocante… E mesmo não existindo forma de fugir de si mesmo, faz parte do processo se abandonar e durante o percurso de recuperar a si mesmo, reencontrar partes perdidas, redescobrir ou descobrir forças e fraquezas. Encontrar antigos “eu’s” tem sido minha forma predileta de abandonar o que não me serve mais. Ou, pelo menos, tentar.
E não conseguindo apagar meu passado, mas abraçando cada parte de mim que eu odiei, é o momento que aprendo a me amar.

E eu só preciso de um instante de amor no meio do caos para me lembrar de que eu preciso lembrar de me amar. E que eu consigo. E que um milissegundo de amor, pode transformar todos os outros momentos à uma perspectiva de perdão.

Números Solteiros

Agora sobrou apenas um copo de Mojito em uma mesa com duas pessoas. E eu fico fascinada com como tudo parece trilhar da forma como eu sempre imaginei. Lá fora está um pouco frio, e sua roupa mistura colônia com a sensação de lar. Me conforto no assento da poltrona, enquanto seu braço me envolve pela cintura e sua mão pousa sobre a minha coxa. Pouco a pouco, apenas sobra hortelã no copo e a promessa de que antes do final do próximo, haveria tal aproximação. Ensaiada, não há como fingir que não seria apenas a realização de um ensaio mental. Eu só nunca imaginei que seria aqui. Ou que tocariam quase todas as músicas do Skank, enquanto eu cantarolo baixinho fingindo não perceber sua total atenção na minha voz. Eu nunca soube o momento adequado, porque nunca me foi ensinado, mas de qualquer forma, eu ensaiei sobretudo como correria para os seus lábios. Mas eu sei que agora você diz ter frio, para disfarçar o desconforto do seu corpo, que pende para perto do meu e se envolve pelo cheiro, também de lar, das minhas vestes. Eu queria ter corrido antes, mas nunca houve momento adequado. Eu não sei se agora interrompo alguma frase ou se apenas selo o silêncio alcançando seus lábios. Mas qualquer coisa que tenha sido calada, foi dita enquanto seu corpo todo parecia tremer em um gesto de desesperada alegria, que eu sei, não haveria como ser fingido. E eu queria congelar seu sorriso estático e corpo em incontrolável movimento como uma fotografia de ternura, para preservá-la, como se isso evitasse de você partir.

Mas você sempre parte. Sempre deixando a incógnita do porquê a mescla entre tanta doçura e ira que me causa. Muito embora daqui, seja muito mais fácil ser paciente com seus gestos, compreender suas piadas um pouco ofensivas ou relevar até mesmo a mania em me irritar, observando um traço de inocência em cada passo. Mas me assustava como você sempre me via, como se eu fosse uma alma despida de corpo. Despida de qualquer disfarce. Como se eu fosse tão transparente que meus pensamentos jorrassem pra fora de mim, até me sentir completamente exposta. Porque você sempre sabia muito de mim, e eu nunca vou saber como.

Aquela primeira noite me fez reconhecer, com um quê de estranheza, que eu nunca dormi tão bem do lado de outro corpo. Os sonhos que eu tive são vívidos até hoje, assim como a sensação do seu corpo, finalmente ao meu lado e como os cachos de seu cabelo invadiam um espaço enorme com doçura e perfume. Seu rosto tão pequeno na palma das minhas mãos, sua pele macia que me trazia a ideia de cuidado… Sempre foi sobre carinho e cuidado. Querer envolver-te em meus braços e proteger. Mas nunca houve segurança pra mim. Não havia cuidado e a incerteza de tudo machucava. E o terror das palavras não ditas se transformavam em indiferença. Nunca houve um espaço para nós, não é mesmo? Nunca houve tempo, momento, entrega e aparentemente sempre pareceu tão errado, mesmo quando o desejo insistia pelo certo. E era o começo de tudo e o fim de tudo, o tempo todo. Como um jogo de Sudoku que começa com números errados.

“O homem de coração dobre é inconstante em todos os seus caminhos”

Eu tenho ligado, fissurada, os pontos que interligam antigos comportamentos de mudanças palpáveis, que cultivei e amadureci em mim. Tenho observado o que todos esses batimentos cardíacos acelerados me contam, e escutado toda a angústia que me desconecta de mim, para voltar a ser paz. E em meu abrigo, que eu seja amor. E que no meu amor, exista liberdade, de compreender que toda e qualquer ofensa, desencanto e insignificância dos homens, nunca e jamais apagará o que existe em mim.
Que almas que tentaram me machucar, e desfazer minha grandeza em pura luxúria de uma noite só, voem contra o tempo para um lugar esquecido e feliz, e que retomem encanto pelo corpo e não pelo sexo.
Que eu seja ouvido tanto quanto sou palavra. E não me perca em meu próprio grito que clama por perdão ou amor, que só são encontrados aqui, dentro, em silêncio.
Que eu saiba ligar pontos finais a recomeços, apenas se tiver a companhia que me leve pelas pontas dos dedos das mãos. E una seus pés aos meus em uma noite confortável de frio. Porque nem só de luta se constrói caminhos, mas também de descanso.
Que eu nunca espere que enxerguem a minha bondade, se foi genuína. Mas que sintam o engano, e a dor, de não se permitir ser amado. E que seja, enfim, coração.
Que esse sossego se transforme e construa laços, pontes e que com a consciência de mil anos, encontrem um fundo de inocência para se permitir acreditar no bom, no puro, no carinho e na compaixão.
Que o cuidado seja ameno, que não afogue e não se isole. Que não tenhamos que fingir não sentir para tentar enganar a dor. E que não mais diminuamos a existência do sentimento.
Que momento, que incrível momento, quando eu não tive medo de lhe tocar o rosto. De observá-lo com os olhos cerrados. Ouvir sua respiração e quase conseguir enxergar teus sonhos. De caminhar pelo seu corpo deitado, com os olhos. Da felicidade máxima e plena de segurar tuas mãos. Que incrível momento, o de finalmente, amar sem ponderação.

Ambulare Discitis

Ao passo que trago, pouco a pouco, um pouco do passado mais pra perto. Ao passo que tento dar passos longos ao encontro do futuro. Me perco no abismo entre tudo o que eu tive e perdi, e perder o que poderia ter sido, se soubesse não perder a mim no tempo. Ou tenho perdido tempo contando os passos de outras pessoas…
Percebo um pouco de mim em cada canto da terra natal que me esforcei pra me convencer de que não gosto. Mas o gosto do cheiro do cinema no qual dei o primeiro beijo, reserva certa esperança desfalecida que desejava sempre ser redescoberta. A cadeira do salão de beleza que abraçava uma criança com uma almofada no assento, para torná-la um pouco maior, envolvia meus sentidos para a memória de quando eu era a criança, naquele mesmo assento. As adolescentes sentadas à mesa de um café com o rosto repleto de inexpressão, de quem envolve qualquer número na conta – como um presente habitual – para despejar como quem realmente gosta de café. E um coração partido por lembrar o tempo que perdi lamentando não ter pedido meu tempo sendo a parte rica da cidade.

A loja de brinquedos na qual eu sonhava em ficar presa por um noite inteira, na qual eu sonhava em ser esquecida, e que hoje me apavora, por ser um alerta de que me esquecerei mais tarde de ser mãe.
Os caminhos pelos quais percorri nos dias de sol e de chuva, atravessando a cidade em um transporte velho, mas veloz, me lembram que sonhos também são finitos, mas nos ajudam a viver, pelo menos, por aquele espaço de vida. E todos os espaços que meus olhos captaram enquanto eu sonhava em continuar podendo sonhar, hoje são apenas espaços em branco, esperando alguém com tanta esperança quanto aquela antiga pessoa que se perdeu em mim.
Talvez eu tenha me tornado realista demais, talvez seja coisa da idade, imaginar que deve-se contentar com o alcançado, e entender que nem sempre as coisas mais maravilhosas acontecem. Ou melhor, entender que as melhores coisas acontecem enquanto se perde tempo esperando pelo melhor. Muito embora, eu pensava que a felicidade plena era um estado fixo e inabalável, como uma bola estática e firme que espera um pontapé inicial de uma partida. E aprendendo a ser feliz, eu entendi que a felicidade estava presente, tanto quanto momentos que minha alma sofria, e sofreu, eu seria completamente infiel a mim se negasse meu passado.

Mas pouco a pouco eu ouço os pés afastando o chão. E eu entendo pouco a pouco, a cada passo, que eu passei todo o tempo triste, com momentos de felicidade. E eu já não sonho com coisas grandiosas, além de poder conseguir aprender, pouco a pouco, passo a passo, a abraçar a alegria de viver, mesmo com pontos de escuridão que cruzam meu caminho. E preenchê-los com novos sonhos, como aquela garota jovem no ônibus em sua cidade natal… Que eu esteja em movimento, ao passo que trago, pouco a pouco, mas com passos largos, um encontro mais pra perto de mim.

Dolor Exolvuntur

Se o luto é um chiclete que se mastiga sem parar, a insônia é o tentar cessar a fome com ele. Do luto à melancolia há um passo. E esse chiclete não pode ser, simplesmente, jogado fora. Mas ele não pode me causar gastrite pela raiva de nunca acabar, muito menos por ocupar o espaço de um alimento real. E se eu não posso andar para longe, eu deveria colá-lo no meu espelho na direção do meu peito. E esquecer que o vazio do estômago se entrelaça a esse vazio no meio dos pulmões, que já armazenam mais fumaça do que eu gostaria. Porque o cigarro não ocupa o mesmo espaço que o alimento, ele preserva esse chiclete intacto em poucos segundos e preenche a falta como um lençol de seda, que acaricia a pele numa manhã de sábado. Mas as paredes do meu peito são como paredes do domingo. E de nada adianta mascar, cuspir, respirar ou afogar. A solidão, o luto e a melancolia carecem de criatividade. E essa massa que, às vezes, se desfaz como a ponta do cigarro queimado, às vezes se torna concreto e me quebra os dentes. Minha boca se enche de sangue que se mistura com essa massa que amolece aos poucos, enquanto me engasgo e me machuco roendo meus próprios dentes.
Talvez eu devesse esticá-lo e grudar um pedaço na parede conforme os mortos retornam vida em sonhos. E devesse mapear o caminho de volta. Talvez eu use o sangue como tinta e escreva. Talvez o maldito chiclete vire cerâmica. Talvez eu use lágrimas para amolecer a massa. E há de ficar bonito. Há de nascer um vermelho vívido digno de um pôr do sol, um poema qualquer sobre esperança, e um vaso cheio de cores no qual guardarei as cinzas dos cigarros e dos mortos.
Entregarei todos em troca de um punhado de comida. Mas eu ainda tenho um pedaço de chiclete como sobremesa…

Diligitur Circino

Já caiu numa poça d’água enquanto brincava na rua? A falsa sensação de que a água poderia ser instrumento impedidor de um arranhão, pode ser facilmente comparada à sensação de tentar mergulhar em um espaço de muitas palavras, promessas…

Talvez eu seja incapaz, na minha inocência primitiva, de realmente ligar os pontos que me façam compreender o porquê, desde o começo, desde antes de existir alguma coisa, tudo já era extremamente catastrófico para um homem quase desconhecido.
Desde àquele quase início, era um coração que sangrava exageros. Solicitava cuidados, exigia respostas, comandava um certo tipo de “terror noturno” no aspecto amoroso, que quer dizer que já trazia medos irreais de uma incerteza sobre suas próprias expectativas, convicções… sonhos. Me assustava. Um pouco. Mas era um coração que sangrava. Era um coração que, para mim, pouco significava e no qual não havia feridas reais, não para mim. Mas manuseei de forma a compreender que poderia machucá-lo, tomei distância e soprei aos ventos o que me parecia certo. Deixei um relógio de pulso ao lado, prometi – sem esperança – que, um dia, conforme ouvisse o relógio e aprendesse a pulsar junto com os ponteiros, ali sim encontraria alguma paz e, talvez, a cura.
Eu realmente voltei para um coração que havia aprendido a coordenar sua batida com os dados do tempo, escondi o relógio e compreendi que estávamos prontos e mais fortes para começar a pulsar em outros ritmos, e em uma linguagem musical algumas coisas pareciam coordenadas com uma direção, mas destino incerto.

Mas o tal coração continuava sangrando e rolando na minha frente, se escondia e reaparecia de formas dramáticas e escrevia sobre como o destino incerto lhe parecia cruel, continuava a me enrolar em casulos que exigiam respostas e promessas que eu não poderia cumprir. Ele não era fácil, tampouco realista. Não era leve. Não era brando. Tampouco livre. Assim como esse que vos fala, também não é.

A condição era que esse mesmo pedaço de carne deveria ser trazido à tona, para que o homem pudesse escrever as linhas do destino, tirar a causalidade de toda uma situação e fosse dono de um tempo ainda por vir. As regras eram rígidas demais, e as correntes que segurariam um ao lado do outro pesavam, enquanto tentava me puxar para alcançar voo. Começamos a desajustar o ritmo, desalinhamos a pulsação para fora dos ponteiros do relógio e eu me parti em milhões de pedaços como numa explosão. As regras, o peso, o impasse, a arrogância, o medo, a frustração, o sangue, a memória, a música… as músicas. Enquanto cada parte de mim sobrevoava ao redor dele, tentou unir todas com a palma da mão delicada e fechou os dedos. Me manteve em sua mão, pensando proteger um pássaro delicado e machucado. Mas eu não era uma ave exótica, muito menos pequena. Eu não sabia voar, nem ao menos gostava de altura. Eu não tinha asas, nem a liberdade de ir e voltar. Foi quando eu notei: ele não me enxergava.

Para merecer o teto de afetos e carinhos, era preciso estar em uma gaiola. Aquele coração se engrandeceu quando percebeu que os olhos do pássaro – que não era pássaro – emanavam o medo de perdê-lo de vista. Dentro da gaiola não cabiam outras histórias, outros pássaros, outros homens nem mulheres, nem a bagagem pesada do passado. E foi quando gritei por um pouco de liberdade, e adoeci, que o homem sumiu da minha vista. E só voltou para cuspir um pouco de maldade destilada em álcool. E eu desejei tão forte e desesperadamente por qualquer afeto, ainda que fosse ficar presa entre os seus dedos. Eu sangrava como aquele coração. Eu procurei o relógio, mas deve ter se perdido junto aos outros milhões de pedaços. E ele nunca o trouxe de volta. O tempo continuava tendo que seguir seus passos e seu coração agora pulsante em sua própria condição. Mas ele colecionava outros pássaros em álbuns, conhecia outros voos e escrevia sobre uma outra mulher.

De alguma forma, quando eu permiti entregar esse mesmo pedaço de carne, que continuava sangrando, que rolava na sua frente, se escondia e reaparecia de formas dramáticas, que escrevia como o medo do destino lhe parecia cruel, o relógio não voltou. O ponteiro ainda era o seu próprio tempo. E era impossível reencontrar minha própria pulsação. Eu não encontraria mais a música. O espaço já era preenchido pelo seu passado, pelo seu tempo e pela sua dor.

Eu encontrei o relógio em algum lugar. Os ponteiros já não emitiam nem som. Eu precisaria encontrar outra forma de compreendê-lo agora. Eu precisaria de mais tempo para me ajustar ao próprio tempo. Ele pode me imaginar da ponta da sua varanda, partindo um voo das luzes que pusemos, me aproximando dos aviões que eu tanto temo. Porque ele nunca vai me enxergar caída numa poça d’água, apenas procurando por alguém que estenda a mão. Ou que me traga um relógio, para que o meu coração ouça o ritmo e o compasso certo para voltar a ser música.

Somewhere Only We Know

Os fios de cabelo negros sempre foram um convite ameno às pontas dos meus dedos. E cada fio branco antes dos trinta expressavam a história de forma corrida e livre de quem viveu muito em pouco tempo.
O cansaço em volta dos olhos e a vontade de que você descansasse em meus braços… e sobre te ver dormir, enquanto eu tinha insônia, assistir seu repouso me trazia paz.
E cada partícula da sua sobrancelha é um contraste ao resto do seu corpo, porque cada parte dela é tão delicada e fina, que chega a desarrumar com um simples encontro com o vento. E se comunica com seus olhos que, pequenos, quase escondem a íris mais interessante que eu já observei. E eu podia passar horas tentando acompanhar o desenho que existia nela, tão assimétrico e tão confortável. Todos esses traços, tão familiares quanto os dias ao seu lado.
Eu acho que o formato do seu nariz é único, não sei exatamente o que, mas existia algo extremamente peculiar sobre a forma e o contorno dele. E antes mesmo que eu pudesse perceber, eu acariciava a ponta dele com o meu, em um gesto esquisito que meu corpo tende a apresentar como profunda admiração e carinho.
E, pra ser sincera, eu nunca entendi o fascínio com o corte dos cabelos e barba, porque mesmo quando o tempo se fazia presente com alguns pêlos desalinhados, o seu rosto ainda era harmônico e realmente belo.
Seus lábios caminharam por tantas partes do meu corpo, e eu poderia jurar que morreria de felicidade no instante que eles encontravam minhas costas nuas. E eu queria viver pra sempre a fim de que eles tocassem os meus, tão delicadamente. Porque talvez você seja a personificação de carinho e é óbvio que sua boca nunca ficaria de fora desse aspecto teatral do seu tipo de romance.
E eu conheci, pelo menos, três sorrisos seus. Aquele relaxado de canto de boca, que envolve a vida num completo deboche macio e intimida meu corpo que o imita, quase que de forma automática; o sorriso leve de quando você canta ou se distrai com o meu perambular pela sua casa; e o que acontece quando você percebe que me ganhou, quando você transparece sentir a sorte de estar ao meu lado e faz com que surja a impressão de que o mundo inteiro congelou no brilho dos seus olhos.
E por mais lindo que sejam cada um deles, é a sua risada que eu continuo ouvindo e sentindo falta diariamente. Porque eu amo a sua voz e sua gargalhada é a expressão dela no auge da alegria. E eu queria poder capturar esse momento pra tentar entender se a falta que você me faz pode diminuir, só um pouco para que eu durma, ou que eu acorde bem.
Porque acordar sozinha ainda é estranho na medida que minha mão procura a sua debaixo do travesseiro. Ou que você envolva meu corpo junto ao seu entre seus braços. Braços que até hoje fazem minha garganta arder em saudade. E eu sei que minhas mãos nunca mais caminharão por esses braços, nem mesmo pra acompanhar os traços da sua tatuagem, nem mesmo pra te segurar perto de mim. Porque agora você está tão longe…
Um único abraço a mais não me faria mais feliz, eu sei. Porque o momento de soltar você sempre pareceu errado e hoje dói como se uma parte do meu próprio corpo fosse arrancada de mim.
E eu queria entrelaçar suas pernas nas minhas, ainda que fosse pesada quando você adormecia com ela sobre mim, mas a leveza do vazio nunca cala essa saudade.
E eu não podia nem odiar seus pés. Eu amo tanto cada centímetro do seu corpo que me irrita. Me irrita estar tão perto ou transformar em lágrima a frustração de entender que ele nunca mais vai estar aqui.

Eu ainda acho que tenho fixado essas ideias desde que você me perguntou, aleatoriamente, qual parte do seu corpo eu mais gostava. Em poucos segundos minha mente divagou sobre cada pedaço, cada aroma e toque… e eu amo ardentemente o toque da sua pele. Eu seria completamente incapaz de responder, assim como não consegui dizer “sim” quando me pediu por mais um único dia do meu lado. Eu vou sempre sentir tanto que, mesmo meu corpo gritando “sim” pelo encontro do seu, a minha razão continuou girando entorno de erros, de mágoa, de medo e na dor do passado se calou em “não”.

Eu sei que é tarde demais e eu sei que não vai existir tempo que resista à ideia de que deveria ter sido você, e infelizmente, não foi. E não existe tempo que entregue felicidade maior desse espaço tempo que dividido se tornou tão inteiro…

Amor é aquela dança que flutua em querer ver o objeto livre, que alcance vôo pra longe, ainda que feliz. Mas que ainda espera que deseje pousar por perto, e que retorne maior e melhor pra grandeza que existe no momento em que nós dois somos um.

Exspiravit Fixum

Tenho encontrado versões de mim em outras pessoas. Vinha sendo apenas versões em épocas de projeções replicadas. No anseio de fugir do espelho que refletia o passado, o entortei para que circundasse meu entorno. Refleti a mim em versões que conhecia, para quebrá-lo e observar alguma nova versão que surgia. Algumas partes presas em cacos choravam, tão ardentemente, que quase salvei, mas na tentativa e na dor da ferida que o espelho partido me causara, foi impossível trazê-las à vida.
Eu assisti a promessa se manifestar, ainda que os cacos machucassem meus pés, mas naquele espaço, existia o resquício de um espelho, a ideia de um passado, e partes de vidas que se foram junto à persona que cabia em mim. Eu precisava me enxergar novamente, e não naqueles pedaços de vidro. Eu precisava me enxergar inteira. E precisava que outros olhos fossem espelhos, havia a necessidade de me enxergar em outras pessoas e outros mundos abandonados, que talvez também tenham andado sobre vidros.
Tentando enxergar a mim, encontrei olhos, que ainda como aquele espelho antigo, apontavam o passado. Refletiam a vida que nunca volta. Não seria o passado um defunto que nunca morre?
Tenho encontrado versões de mim em outras pessoas. Essas têm sido apenas versões do que eu fui, do que eu fiz e tudo o que eu conheço. Não seriam esses os verdadeiros fantasmas? A mulher que nunca me conheceu, mas ainda é a minha fragilidade mais profunda quando é tudo o que eu gostaria de ser e não sou. O homem que nem ao menos lembra do gosto de meus lábios, mas continua comigo quando eu faço alusão a um trauma. O sorriso enrijecido de quem me feriu, e nunca se arrependeu. O homem que se casou com a mulher que conheceu dois dias depois de se deitar comigo. As versões das pessoas que me amaram, na época em que me amaram. As pessoas que ainda estão vivas, em versões que desconheço, e que já devem ter enterrado a parte que me era familiar em terra ou em qualquer outro espelho. Aquela pessoa incrível que desistiu de mim depois de um erro meu.
Tenho assistido o passado em sonhos ou me descubro retornando à mesma narrativa, com álcool em meu sangue e lágrimas que correm meu rosto. E neste vasto mundo não há terra que vire habitação de lembranças.
O passado não morre, mas se transforma. Vira sonho, vira medo, acaba se ressignificando em várias outras facetas, conforme eu alterno entre minhas próprias versões. E me persegue como um cheiro forte e ruim, que simplesmente impregna e é impossível cessar. Me persegue como se também fizesse peso nas minhas pernas e ombros. Peso esse que só me dá a alternativa de tentar ser cada dia mais forte, para carregá-lo, enquanto eu anseio ardentemente pelo dia de minha morte, para que eu enfim, vire passado. E com sorte, seja uma lembrança leve de ser carregada.

Prope Curre

É quando eu sinto saudade. Saudade de alguém. Saudade de mim. Saudade de ser quem sou. E não sei se sequer é possível ser alguém além daquilo o que eu realmente sou.
Mesmo estando tudo nublado, com a consciência deturpada, onde meus anseios e medos se anulam hora após hora da madrugada, poderia eu ser alguém diferente?
Mesmo não tendo certeza de nada, perdendo o controle do que nunca tive, sofrendo pela falta do que nunca se foi – ou nunca foi – não sou a mesma? Não sou a mesma que no fundo compreende tudo?
Não sou a mesma que mesmo que não sangre como antes, ainda que tenha escolhido preservar minha carne, não sou eu martírio de minha própria mente? Que ainda machuca a si?
Ainda que não me ouça mais gritar, não sou minha voz?
Mesmo que tudo aqui dentro pareça tão diferente, não tenho escrito em linhas – cada vez mais – tortas a mesma história?
Não sou eu quem nega minha própria paz, procurando incessantemente, veementemente e fervorosamente uma forma de encontrar paz?
Ainda que sinta demais, não continuo sendo a mesma racionalização de tudo, abrindo espaço apenas pro que foi fruto da minha imaginação? Fingindo – como sempre – sentir tão pouco?
Essa ponta de saudade solta tenta se prender a mim, enquanto eu fujo, tentando perseguir quem realmente sou. Em vão. Correndo pra qualquer lugar, pra longe de mim. E torcendo pra – nunca mais – me perder de mim.

Finis Vexillum

Tenho rasgado esses papéis. Papéis que encontro nas gavetas, grudados na parede, no espelho. Um vestígio de uma decisão – incerta – da noite passada. Tenho escrito nesses papéis durante as noites exauridas. Fixo-os nas paredes do quarto, dentro das gavetas, no meu espelho… Então, os rasgo pela manhã. Déjà vu. Já me disseram isso, em linhas tortas, longe dos papéis. Eu já estive aqui. E eu preciso correr. Quando eu não corro minhas mãos automaticamente escrevem nos papéis a serem colados nas paredes. E achados nas gavetas. Com apenas a lembrança dos pés descalços que não correram noite passada. Parte dos meus pensamentos me despertaram, talvez três ou quatro da manhã. Dormir duas horas não me fez esquecer. Mas às oito, eu rasgo os papéis rabiscados. Dobro a decisão e coloco gentilmente no lixo os papéis das gavetas, do espelho. Durante o dia eu tento me esquecer de lembrar de escrevê-los de novo. Os lembretes. Fixa-los nas paredes do quarto. No espelho do banheiro. Quatro horas da manhã. Despertador. Oito horas. Hora de rasgá-los. O café. O sol. O vento. Monotonia. Isolamento. Solidão. Escurecer. Escrever. Fixar. Os lembretes nas paredes, e gavetas. No espelho do banheiro. Lembrar de não arrancá-los. Dormir às quatro. Despertar às oito. Rasgar. Jogar fora. Os lembretes. Rasgar. O peito. Na tentativa falível de não desistir de decidir.

Innātus Spatĭum

Não haveria forma exata do momento que suspenderia tal falta. O vazio nunca antes percebido preencheu lacunas, as quais não me atreveria investigar. Inconstante sensação de quase encontrar uma razão, quaisquer meios que me pusessem neste fim. Seria, então, possível compreender a mim como um espaço nesse tempo tão confuso? Espaço esse, que se encarrega de preencher-se e esvaziar-se tão descompassadamente? Ora memórias. Ora esperança. Talvez esse seja o exato momento em que ambos se encontram. Encontro injusto. Uma expectativa arrebatada por lembranças que colocam ao chão as histórias entrelaçadas entre o ontem e o hoje. E momentos surpreendentemente perdidos em algum espaço diferente do que sou hoje, mas que já fui algum dia. Algum espaço que eu pretendia ser, disfarçadamente, e enganando-me tão completamente, fui.
Talvez permaneças incógnito, assim como o espaço que criei continua criptografando onde eu realmente estive, quem eu realmente era. Como se eu, sem controle, fosse o espaço imenso censurando a possibilidade de reconhecê-lo através de mim. De sentir, e enfim lembrar. Aos poucos, talvez, o espaço se encarregue, por si só, desses significados. Um alívio repentino. O esquecimento. A distração. O envolvimento com a arte. Pode ser que ouça em seus processos a forma exata de suspender tudo em uma linha tênue entre distância e aproximação, como ousou fazer nos últimos meses. Talvez corrobore com o tempo, permaneça confuso, enrijeça tal como as paredes que me abrigam em aprisionamento.

Lucem Rubrum Sanguinem

Eu caí sozinha em um espaço pouco confortável. Aprendi a recolocar meu corpo no lugar que já estava. Reaprendi a acordar de um pesadelo, ou ainda melhor, vivê-lo sem medo. Entre tantos espaços não preenchidos da minha cama, eu busco incessantemente algum vazio que substitua esse barulho aqui dentro. Como se já não fosse tão assustador encontrar minha cabeça vazia enquanto vagueio por tantos espaços. Como se eu continuasse esbarrando no mesmo móvel, que eu ainda não me acostumei, mas que é demasiado pesado para movê-lo sozinha. Como se aquela mancha de vinho no tapete, aquela mancha de sangue na minha roupa me perseguissem em outros tecidos, tecidos supostamente novos. E eu continuasse pisando nos cacos de vidro, dos espelhos através dos quais odiei meu próprio reflexo.

Minha carne já não é coisa tão jovem. Meu cansaço não conversa apenas com meu corpo. Tantas palavras circulam junto à minha corrente sanguínea, que se tornou impossível lembrar todas, impossível esquecer uma sequer.

Esse vazio não solicitou preenchimento de coisa alguma. Minha ideia obsessiva sobre teus passos, sua olheiras, tua forma de falar, transformou a cura de um trauma em um trágico espaço sem saída, sem início e sem fim. A cada transformação da noite em dia, uma esperança em forma de espasmo percorria cada centímetro da minha pele. Em constante mudança, eu mantive os pés firmes no chão, mais uma vez, sem nem ao menos crer que o mundo poderia se virar a meu favor, porque, para mim, os dados da sorte sempre foram cubos mágicos pra uma daltônica. Eu cresci esperando que alguém desvendasse a forma correta de todos os lados e todas as cores, e o que se escancarou diante de meus olhos, foram formas que pareciam certas, corretas e alinhadas com todo o resto do meu corpo. Tudo parecia vibrar bem quando aquelas cores estavam postas juntas, sempre parecendo todas iguais, enquanto eu me recordava a cada amanhecer que tudo mudava, menos minha incapacidade de enxergar cores.

Parece pouco provável que as coisas por aqui mudem, que eu encontre uma outra forma de enxergar as cores da natureza desse espectro romântico, platônico, doentio de viver a vida sempre com medo. Se o amor é o alimento da alma, o medo se alimenta dela. Por aqui anda mais escuro do que o comum, mas parece bem provável que eu tenha encontrado conforto no único pedaço que eu odiaria estar alguns anos atrás. Talvez, porque por aqui não existam cores, eu não preciso decifrar as cores do maldito cubo mágico que continua se mexendo sozinho, em algum lugar, apenas emitindo sons que eu preferiria calar. Estranho como se tornou sobre tentar calar o único som desse vazio envolto apenas por nada mais do que escuridão. Quando criança, a vida lá fora parecia Las Vegas, com todos os seus jogos de cores em forma de luz cintilante, os dados que pareciam ter combinações infinitas de sorte ou azar, dos baralhos que incitavam minha intuição a escolhas erradas. Inofensivas. Mas erradas. Ninguém te ensina, quando criança, sobre a possibilidade de acumular ausência de luz. Em algum momento deixou de ser sobre perder, mas colecionar e amontoar todos esses pesos e ir apagando a luz para não mais vê-los.

Apesar de daltônica, eu podia agora enxergar no escuro. Minha tentativa de fuga sobre todas as partes de mim continuam sendo areia movediça para dentro de mim mesma. Para dentro de todas as coisas que eu gostaria de poder expulsar, então eu só grito. E eu oro para nunca perder a voz. E escrevo, pra nunca mais morrer.

02.06.2020

Locus Nullo

Ninguém te ensina o que fazer diante de uma rejeição. Ninguém nunca se abaixou ao meu lado pra me ajudar a recolher os restos de tentativas, em vão, espalhadas ao meu redor. Nunca houve com quem realmente contar, pra me contar o porque eu continuo tendo tanto o que contar sobre a quantidade de buracos espalhados no meu espelho. Eu já tentei contar quantos são, mas essa tentativa é sempre barrada por um borrado que minhas lágrimas transformam minha vista antes de fluírem pelo contorno do meu rosto. E não é nem tanto sobre as lágrimas vistas, sobre as vistas perdidas dentre memórias ou as visitas que nunca chegaram. Não é sobre quem viu ou deixou de me ouvir.

Talvez rejeição seja a sensação de estar em uma grande festa, um lugar iluminado e várias pessoas ao meu redor. E dentre todas as informações realçadas pela luz, querer ser destaque. Mas o mundo no qual eu vivo não é uma festa. Não… Aqui não é importante o valor do tecido que cobre meu corpo, ou quantas vezes a luz reflete nos acessórios que eu passei horas escolhendo a dedo. Não importa pra que lado esteja o diabo do meu cabelo. Nem se meu corpo é esculturado por horas de exercício físico ou resultado da minha compulsão alimentar. Não, definitivamente ninguém se importa, com quão branco é meu sorriso (tampouco a espontaneidade que pode ou não estar ligada a ele). Porque nada garante que qualquer coisa que eu seja, ou que eu faça, me impeça de ser apenas mera passagem.

Os valores que permeiam esse mundo são outros. É importante que eu escolha a roupagem que irá mascarar meus defeitos ou desvalores. Talvez, seja importante manter minhas qualidades à luz, arremessá-las sempre que houver oportunidade de ser reconhecida. Muitas vezes minha personalidade pode ser reduzida ao meu corte de cabelo, ou talvez, seja importante mantê-los limpos, para uma ocasião inesperada que quase nunca realmente acontece. Talvez percebam de que tipo de arte eu me alimento, quais filmes fazem parte da minha trajetória e quantas vezes eu consumi a música que afetava outros estômagos. E minha real aparência seja o que eu posso vomitar dos restos de arte alheia.

Eu não quero parecer pessimista. Eu não quero querer parecer outra pessoa. Eu não quero ser diferente do que eu sou, ainda que o que eu sou, seja um enigma, até mesmo pra mim. Um enigma por detrás de roupas, luz, arte, sorrisos, gargalhadas perdidas entre dentes, choros desesperados à uma noite infinita, carência despojada por droga, passos largos e rápidos sem ter lugar para chegar. Não ter lugar pra chegar. Não ter lugar. Rejeição é não estar em nenhum lugar. Se sentir imensa num espaço tão pequeno, não saber o que fazer com o próprio corpo, porque ninguém te ensina o que fazer diante de uma rejeição. Rejeição é me sentir pequena demais, num espaço enorme, do qual eu preciso sair antes que me vejam aqui no chão, sem chão, sem perspectiva. Rejeição é não ter o que fazer com o próprio corpo. É desejar estar onde não se pode, e nunca querer estar naquele lugar, o de rejeição. É estar em lugar nenhum. Não ter lugar pra chegar. Ser rejeitado é ser diminuído ao ato de: não ser.

Quarentena

No invólucro dessas paredes, há uma ideia inverosímil de proteção. Mas a realidade lá fora, ultrapassa a pele que existe entre essa dor e tudo o que tem acontecido. E talvez, meu medo hoje, seja o acontecimento de ontem de inúmeras pessoas. Domingos são temorosos, bem como você sentia, pai. Por aqui, tem sido domingo todos os dias. Porque a vida parecia ter início às segundas-feiras, enquanto domingo ainda é, unanimamente, o pior dia da semana. Muito provavelmente por não temermos o fim, mas porque, talvez, o que doa mais sejam os recomeços. Não há certeza sobre qual será o ponto de partida. Nem mesmo a certeza de quando. Assim como é a morte, hoje é incerta, até mesmo, a mais desejável situação de vida.

Nocet Passion

Sobre todas as coisas cruéis demais que fazemos a nós mesmos quando mais ninguém nos vê. Os pensamentos de solidão, as sombras que bem conhecemos e tentamos incansavelmente iluminar, da trágica melancolia que insistimos em guardar um pouco mais, pra entender o que dizia aquela música triste, aquela pintura assombrosa ou o filme cheio de tragicidade que é facilmente comparado a algum momento dessa esgotável vida.
Talvez a mais cruel de todas ainda seja permitir se apaixonar. Se deixar levar por todos os impulsos permitidos nesse estado de quase doença. Permitir que toda essa química cerebral carregue meus braços ao encontro de outro corpo. Deixar que meu corpo inteiro sorria pro universo num imenso prazer cabal. Me propor a deixar de lado o medo que me protege, sem nunca ao menos conseguir esquecê-lo de verdade. Eu não me lembro de doença mais assustadora do que essa, que me faz sentir completamente só, perdida dentro de um espaço de mim imenso demais pra caber nesse universo para o qual sorrio, uma intensidade que faz cada gota de sangue arder em minhas veias, meu peito doer como num infarto precoce, meu estômago recusar se alimentar de qualquer coisa que não seja mais um momento, mais um minuto ou segundo com meu objeto de desejo.
Nada poderia ser melhor comparado ao clichê de sentir que ninguém, nunca, entenderia nem uma parte disso.
Mas eu me acostumei com cada parte dessa dor, com cada sintoma de uma doença que só cresce e só deixa cada vez mais explícita a real solidão.
E eu me esqueci que a paixão poderia machucar fisicamente, desse lado de fora do meu corpo. Eu jamais poderia imaginar que comigo seria um soco no estômago do lado avesso às borboletas nele. Muito menos no sangue que aqui arde, agora do lado de fora. Eu nunca imaginei lidar com o medo de quem dorme ao lado. Ultimamente, eu tenho aproveitado o medo da minha própria pessoa. Eu sequer tenho me machucado mais depois de ter sido ferida. Talvez eu tenha mais paciência com esse corpo, com essa mente, depois de ter vivido o impulso alheio contra ambos.
Alguma coisa aqui dentro morreu. Se foi tão fortemente, que eu nem ao menos consigo lembrar o que era. Mas morreu. Apesar do medo ter crescido com essa morte, essa coisa não é exatamente algo que me faz falta. No lugar dela há mais acidez, há espaço pra uma pessoa mais astuta, indiferente, meticulosa, lógica. Há muito mais espaço pra força.
Força que talvez traga o desejo de me apaixonar de novo, mais resistente às ardências, às dores, à doença que me faz ficar cara a cara com a morte novamente e rir dela. E que ela tire todos os pedaços que eu tenho aqui dentro, pra que eu me renove, que eu cresça e viva, até que eu realmente morra.

Cor Elasticis

Sua cabeça repousou sobre meu ombro, mas eu nem pude sentir as lágrimas que caíam. Acompanhando tal cena repentina, um pedido de perdão sincero, de energia humilde e melancólico como havia de ser. E com meus braços envolvendo seu corpo, depus crédito ao pedido e o ingeri como quem toma um remédio difícil de ser encontrado, como única solução de cura. O contato foi suficiente para que nos desprendessemos e pudéssemos continuar caminhando, e pela frente, havia um caminho íngreme que agora iríamos prosseguir sem os dedos das mãos entrelaçados.
Mas quando meus olhos se abriram no escuro, seu corpo não estava do meu lado, abracei gentilmente os lençóis que me cercavam. Compreendi ali minha psique como um lugar quase palpável, que agora se esforçava em demasia para unir peças inconscientes e preencher o mundo material com seus significados dispostos nas atitudes de simplesmente seguir enfrente.
E apartir de agora, nem a cor vermelha significaria mais sangue, e nem a dor do passado seria mais tão aguda. Talvez a cicatriz que eu mantive aberta para compreender um pouco mais sobre o que há aqui dentro de mim, possa finalmente ser vedada. E ainda que a pele que a reveste deixe uma marca de antiga ferida, esta não mais sangrara e nem deverá ser tratada.

Praeter Amare

Amar alguém de longe é uma tarefa árdua, vazia, solitária… amar o que é lembrança enlouquece, odiar o que não se pode mudar adoece. É nesse espaço tempo que as coisas tomam lugares jamais antes preenchidos. Quando tudo muda, já não há chance de reparo, mas existe aquilo que nunca muda. Sentimentos, sendo atemporais, destroem as partículas da mente que tomam decisões sobre os atos. E sentimentos sobrevivem ao tempo, distância, mas não ao caos. Quando caos é escolha, o corpo sobrevive, mas deitado em profundo escuro e vazio do tempo. Distância e tempo de mãos dadas carregam o corpo, que levita mesmo com o peso das dores que lhe comem as entranhas. Sobreviver dia após dia. Caminhar, dando um único passo de cada vez. Perseguir o futuro com a esperança de paz. Pode-se deslizar, escorregar, cair, mas nunca correr e nunca caminhar para trás. É por isso que olhar para trás é um ato de coragem, o nobre ato de tomar uma distância que permita enxergar um todo. Sem retorno. Tomar um tempo que permita enxergar sem derramar o ódio pelo passado. As análises do que é possível abraçar completamente agora ao longe, podem ser frutos colhidos de uma árvore antiga, cujo as raízes se tornaram invisíveis de tão profundas.

Nigra Aqua

Ter um nó na garganta é como tentar gritar, as palavras atingirem a parede do céu da boca, e essas palavras ficarem perdidas entre o corpo ferido e a saída da boca. Um nó na garganta quase sempre é ligado a um nó que fica dentro da minha cabeça, que incomoda como um tumor, causando enxaqueca e sonolência. Esses nós têm um ponto de partida no estômago, que regurgita todas as ideias do nó mais alto, repetindo os traumas que ferem a alma. O desejo de gritar é tão forte, que me faz querer expulsar as vísceras, sentir cheiro do meu próprio sangue, nadar no amargo do passado e preencher as lacunas desse meu vazio, me afogando em águas frias e sujas do tempo. Porque lá em baixo eu não vejo, eu não ouço, tentar gritar debaixo da água é como gritar em um sonho. Tentar se segurar na água pra evitar que se afunde mais é suicídio. Talvez meu corpo chegue à superfície quando conseguir repousar. Quando ficar leve e livre de qualquer tentativa de fuga. Eu já cansei de tentar vomitar meus nós pra que alguém me puxe e me salve. É aqui dentro, na minha paz, que aprenderei a respirar de novo.

Thayná Lofiego

Sanguinem Somnia

É como se a minha dor de cabeça fosse emprestada. Parte de todo esse corpo que hoje pesa, apenas flutua por cima de todos os processos de cura. O sangue que eu encontrei em contato com esse mundo externo, seca. Cada cicatriz se fecha. E ainda há muito mais carinho pelas dores que foram provocadas pela minha própria insanidade latente. O silêncio é parte essencial da falta, e nesse imaginário, quem menos grita pra dentro de si, menos entende o lado de fora. Não existem passos longos ou curtos daquilo que deve ser vivido. Existe a imensidão da ilusão de tempo. A gente inverte os medos, se inverte, se torna avesso, foca nos maiores prazeres ou sofrimentos. E um dia a terra é jogada, como quando sucumbe o corpo, e se a alma nunca morre, quando e onde conseguirei aniquilar a ideia dele? E uma vez que se vive já não existe lugar no mundo longe o suficiente pra fugir de uma ideia. Uma vez que se sente, já não existe ideia que coloque ponto final nas memórias. E há de se esperar que as lembranças já não carreguem o mesmo sentimento, e eu rompo com tudo, na esperança que minha ilusão de tempo tome conta de riscar as reticências. Eu abafo o silêncio ensurdecedor que sempre toma espaço da minha mente, como uma câmara sem forma, que se torna independente, desligada de um corpo. Flutuando com uma visão dividida, como a de alguém que observa o próprio corpo num caixão.
Todo e qualquer movimento se tornou estático ou, ao menos, mais lento. A visão turva do presente, agora me convida a cerrar os olhos. Como o abajur que cai, se quebra, e desperta os que ficam no quarto escuro.

Thayná Lofiego

(12.09.2019)

Era pra ser e não foi

Dos sonhos que jamais realizaremos. Das inúmeras coisas do meu dia que terminarão não compartilhadas. Da espera pela sua chegada que será infinita. Dos filmes que nunca vimos. Dos planos eternamente adiados. Das noites que não estaremos juntos. E músicas que não serão ouvidas. Dos bares aos motéis da cidade que não conhecerão nossa risada. Do último beijo que eu não me recordo. Das ideias trocadas. Das coisas que surgirem e jamais serão de seu conhecimento. Da dúvida à falta. Do desejo ao medo. Do quase “sim” que infelizmente, por sorte, foi “não”. Do som ao silêncio. Da esperança ao fim. Do brilho à escuridão. Do que era só o começo. Do que não deveria doer. Do que não era cobrança. Do que eu não deveria sentir saudade, mas vou. Do que me testa. Do beijo mais significante de toda uma vida. Do que eu sei que é mentira. Do excesso de entusiasmo à falta de atenção. Da amizade corrompida. Das viagens que nunca viveremos. Da segunda chance. Dos jogos falsamente perdidos. Dos copos na mesa. Das roupas ao chão. Da fragilidade latente. Do mau uso da inteligência. Do romantismo à manipulação. Da lágrima ao vento. Da desculpa ao adeus. Do sol refletido nos olhos. Do sorriso ao olhar ensurdecedor. Dos ganhos às perdas. Das alianças ao anel perdido na gaveta. Do pai ao filho. E da filha ao pai. Dos segredos confessados. Do âmago da família ao berço. Dos cabelos à pele. Da excitação ao susto. Do justo ao desregrado. Do frio ao calor da pele. Da insegurança ao orgasmo. Do proibido à liberdade. Da proteção à violência. Da alegria à depressão. Do auxílio à dependência. Da dificuldade que se liquidou. Das fotografias apagadas. Da confiança nunca construída. Do pedestal imaginário ao limbo. Das carícias ao açoite. Da rotina à perda. Do pedido à traição. Da ânsia à fumaça. Da felicidade ao caos. Do nascimento à destruição. Do que até já foi sonhado. Do que poderia ser premonição. Do inconsciente ao ato condenável. Da gentileza à amargura. Dos presentes à ofensa. Da boa vontade à falsidade. Da importância ao vazio. Do que eu queria que fosse tudo, e acabou sendo nada. Do que eu jamais saberei. Do que devia ter sido amor. Do que poderia ter sido.

Do que era pra ser e não foi.

Do que era pra ser a última tentativa, a primeira certeza. Acabou se tornando a maior solidão compartilhada.