Liberi

Meus textos tem sido produto de associação livre. Pouco se salva do material poético que costumava alimentar meu anseio pela escrita. Eu aceito que seja uma fase. Eu aceito cada traço que eu desenho com as pontas dos dedos. Por que eu não aceito que o que eu vivo também é fase? De onde eu consigo extrair tanto medo? Eu já deixei de ter medo de estar só, e hoje só me cabe tristeza por me sentir só. Solidão pouco tem a ver com quantas pessoas te cercam, ou até mesmo com quantas se pode contar… solidão na verdade é não encontrar conforto dentro de si, buscar incessantemente qualquer matéria que preencha esse estado indescritível, e não encontrar. Solidão é buscar a mim mesmo em outros corpos, e projetar neles tudo que eu tenho de pior, exaltar meus defeitos, odiar a maior parte de quem me ergueu a mão, e me iludir com a ideia de que eu sigo por amor próprio. Eu ainda sou uma criança aprendendo a engatinhar nisso que chamam de vida. Eu acredito piamente que todos nós somos. É tão inato do ser humano ter ciclos felizes e tristes, um atrás do outro… essa semana, almoçando com um velho amigo, o mesmo chamou minha atenção quando por comentar que não estava se sentindo bem, disse calmamente “é assim mesmo, eu tive uma fase muito boa, que durou muito tempo, e agora vem a fase ruim”. Coisas boas acontecem o tempo todo, mas eu me afogo em tudo que há de negativo, eu não me permito equilibrar essas vivências.
Eu tenho contado pra qualquer pessoa que cruza meu caminho – algo que eu nunca fiz – que eu realmente sinto ter perdido uma grande amizade. Não há um segundo do meu dia que eu não queira cair em lágrimas por isso. Não há uma noite que eu não caia. Toda manhã existe esse vazio no meu peito. Se eu pudesse, de qualquer forma, ou em milhões de tentativas imagináveis de reduzi-lo, traduzi-lo ou significar esses anos de presença quase constante, eu traria do meu vocabulário quase extenso uma única, pequena, minúscula palavra. Paz. Eu nunca entendi se paz era ausência de qualquer sentimento ou todos eles juntos em equilíbrio. São como as cores. Preto quando parece ausência das cores, na realidade, acomoda todas. Era como sentir que eu estava mais intensamente viva do que nunca, ao mesmo tempo que o pânico quase me tomava, porque eu não sentia nada.
Eu vivo me perguntando se força seria ter esse nó na garganta me acompanhando diariamente enquanto eu continuo exercendo meus papéis com um sorriso que só existe no meu rosto. Força seria me deixar cair nos braços de qualquer amigo, confiar, deixar que ele me veja chorar como eu não costumo fazer? Força é continuar lutando por tudo que parece estar perdido, ou seria saber o momento exato de desistir daquilo que só te traz dor? Força é sinceridade ou omissão? Se eu respondesse que é uma junção de todas essas coisas, então não seria força, seria equilíbrio. E ao meu ver, equilíbrio tem muito mais a ver com leveza… A vida pra mim é sempre sobre tudo ou nada. Se eu começo eu vou até o fim. Se eu dito um fim eu quase nunca me permito voltar atrás. Eu deveria ser mais maleável? Até onde por mudar eu continuaria sendo eu? E se eu mudei demais todos esses anos, quem sou eu?

Thayná Lofiego

porque eu escrevi ouvindo:
https://www.youtube.com/watch?v=jfz-XDWPt-M

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Every living creature on this earth dies alone

Onde está a sua verdade? Até onde ou até quando você pode sustentar uma promessa? Sua escolha hoje é consciente ou ofuscada? Amar alguém morre em quanto tempo? Ninguém é sincero o bastante a ponto de verbalizar e alertar que sua presença só durará o tempo necessário pra extrair exatamente o que precisa. Apesar que, uma vez uma pessoa me disse “não espere nada de mim”, e foi a coisa mais generosa que eu ouvi. Eu ainda não entendi minha geração, eu não sei o que elas dizem sobre amor, mas eu sempre fui a última a construir esse castelo. Eles estavam sempre tão preocupados em conceber isso rápido demais. No fim eles construíam amor como um castelo de areia, e quando eu estivesse pronta para contribuir com a construção, todo meu material era sólido demais, e a areia se dissipava na imensidão do mar. 

 Estar sozinha é, na realidade, muito menos pior do que estar envolta por uma veste emprestada. E eu já não me importo em dar adeus. Eu só tenho certeza que eu nunca mais volto, eu nunca procuro o mesmo castelo de areia, e eu sei que a solidez de tudo que eu criei me acompanha, ainda que eu não tenha um lar. É que essa praia é muito vazia, tão extensa, e eu ainda não tenho um lugar ao qual me fixar. Às vezes eu penso, que não importa. Eu sempre gostei de raridade. Todos esses muros de areia que caíram sobre minha cabeça, me assustaram, mas eu tenho aprendido a ter meu próprio corpo como lar. O Universo ainda me assusta, mas minha mente é meu melhor casulo. E eu sei que vai ficar tudo bem. 

 Eu já não tento ser compreendida, eu já nem tento devolver minha dor, eu sei que todo mundo que parte nem ao menos olha pra trás, e eu devo fazer o mesmo. A maioria nem percebe que está partindo. Mas eu tenho pra mim que algo aqui dentro, se difere do que eu vejo lá fora. Alguma coisa na minha sensibilidade, alguma coisa na minha coragem, dessa força que eu extraio da natureza, dessa esperança que nunca me abandona, nessa vontade de evoluir e me doar, alguma coisa nisso tudo ainda vai me levar além. E aí sim, sem rótulos, sem tempo, sem regras, a minha forma de amar vai ser reconhecida. 

 Se sentir especial pela forma como você foi capaz de amar alguém, está entre minhas melhores sensações. Eu ainda vou sentir muito essa falta de ter alguém do outro lado, mas hoje eu vou saber que todas essas palavras jamais se sustentariam. Não tem a ver com amor, com ilusão, com dor, não tem a ver com paixão. Ainda é mais sobre o tempo e as coisas que ele leva. Eu pediria ao tempo que me desse mais tempo. Eu pediria a ti um pouco mais de compaixão, mas existem coisas que não se pedem. Não se pede mais tempo ao tempo, e não se pede que amor seja algo real quando nunca se foi. 

 Eu coleciono a memória desses castelos de areia, eu observo o fascínio dos homens por ele, mas eu ainda busco, ao menos, um único cômodo de concreto. 

Thayná Lofiego

São 3:47 da manhã. Daqui mais ou menos 10 minutos fará uma hora que eu acordei assustada. Eu entendo porque tristeza mata. Eu me abracei tentando cessar uma dor de uma ferida que não existe. Eu cansei de tentar desenhar o formato da dor pra que alguém pudesse entender e me abraçar de verdade. Ninguém está acordado agora. Eu também não deveria estar. Repassando mil coisas na minha cabeça que eu deveria ter feito, que eu deveria ter dito, em como eu posso gritar pra que alguém entenda. São quase 4 horas da manhã e eu preciso que meu corpo descanse. Continuo repassando mil coisas que eu devo fazer daqui algumas horas. Eu não posso falhar, eu preciso ser melhor, cada hora do dia eu preciso provar a mim e a quem confia em mim que eu dou conta. Meu rosto está frio, completo molhado e coberto de lágrima. Eu estou sozinha agora. Eu já não sou o depósito de expectativa, eu não sou distração, eu já não sou mais tão necessária. E o medo fica me consumindo. E não tem ninguém aqui pra me livrar disso.

Eu vou ter que crescer. Eu preciso crescer muito com tudo isso que me cerca hoje. Eu sempre penso em reações, mas elas nunca são como eu imaginava. A primeira vez que eu li, parecia que eu tinha bebido muito rápido algum líquido de efeito fortíssimo. Paralisei. Eu encarei as coisas à minha volta como se quisesse ter certeza que eu estava lá. Continuei comendo no modo automático, e não tenho ideia qual era o gosto da comida. Eu não sentia ar entrando em meus pulmões, mas também não sentia falta dele. Eu li “Neoplasia maligna”, e agradeci uma parede atrás de mim que me serviu de apoio. Enquanto eu tinha lágrimas no rosto eu sentia novamente o ar, que meus pulmões expulsavam tão depressa quanto entrava. Eu estava ofegante. E se se sentir fraco é ter a dor de um peso que não existe nos braços, lá eu era fraca. Tristeza, eu acho. Talvez defina bem. Queria alguém que me abraçasse, mas queria estar sozinha. Queria conseguir verbalizar a alguém, mas eu ainda não conseguia me mexer.

Thayná Borges 
(21/07/2017)

Morte em Veneza (1912)

“Pois a beleza, Fedro, grava bem isso, apenas a beleza é simultaneamente divina e visível; ela é, portanto o caminho pelo qual o artista alcança o espírito. Mas tu crês, meu querido, que aquele que se encaminha ao espiritual pela via dos sentidos pode algum dia alcançar a sabedoria e uma verdadeira dignidade viril? Ou antes acreditas (tu és livre para decidir) que este é um caminho atraente conquanto perigoso, na verdade um caminho equívoco e pecaminoso que necessariamente conduz ao erro? Pois é preciso que saiba que nós, poetas, não podemos percorrer o caminho da beleza sem que Eros se interponha, arvorando-se em nosso guia; sim ainda que sejamos, a nosso modo, heróis e guerreiros disciplinados, somos como mulheres, pois a paixão é nossa sublimação, e nosso anseio não pode deixar de ser amor – para nossa satisfação e para nossa vergonha. Vês agora que nós, poetas, não podemos ser sábios nem dignos? (…) decididamente, e nossa única aspiração passa a ser então a beleza, o que quer dizer simplicidade, grandeza, um novo vigor, a espontaneidade reconquistada e a forma. Mas forma e espontaneidade, Fedro, levam à embriaguez e à cobiça, arriscam levar um coração nobre a cometer um atentado atroz contra o sentimento, atentado que sua própria exigência de austera beleza repudia como infame – também elas conduzem ao abismo.(…)”

Thomas Mann – Der Tod in Venedig (1912)

Corporis Periculum 

Queria ser o corpo que adentra teus sonhos ruins, como um corpo que te serve e afaga. Fechar os olhos, sentir teu corpo no meu, por ora. Ouvir as razões pelas quais teus pelos enrijecem. Razões que até mesmo tua pele desconhece. Queria adentrar tua boca e pousar no instante que tuas ideias encontram palavras, entender qual filtro te resguarda. Quero tê-lo cru, como quem não esconde gestos e palavras, com tuas cicatrizes abertas e estar no momento que foram concebidas. Drenar todo sangue e palpar o suor que persegue teus sonhos. Fazer uma massa do que tu chamas de fracasso, estender sob o sol, observar transformar em água e regar teus futuros planos. Quero a intimidade de teus lençóis nunca arrumados, num canto do mundo que chamas de teu. As risadas que unem os dias por camadas mais leves, transformando-os em pequenos laços ininterruptos e quebra de solidão. Tentar consertar a ti, enquanto minhas partes continuam amontoadas em algum canto que eu esqueci o caminho de volta.

Thayná Lofiego

Asthma Insomnia

Algum dia vai ser sobre permitir estar nos braços de alguém, mesmo sabendo que é muito mais fácil que eles lhe deixem partir. Algum dia será sobre deixar de caçar inutilmente um culpado que alimente minha sede por vingança, e então abraçar a solidão com tanta força, a ponto de rasgar-lhe a pele com desejo de sangue corrente para parecer mais viva. É sobre olhar uma cicatriz aberta e rir veementemente por descobrir que o maior desgraçado da sua vida fez isso a ti, e que ele é tua única salvação num mundo onde as pessoas se esvaem mais depressa do que o líquido de cada taça entornada antes da noite partir.
Não é sobre o exagero da essência de tudo que se conhece desses encantamentos que volta e meia nos golpeiam na garganta, e descem por todo o tronco saciando a fome pela cópula. É muito mais do que um depósito de energia física, é a busca incessante por uma oportunidade que assossegue meu julgamento sobre tudo aquilo que eu conheço. E eu domino o processo. Eu sei que o processo da dor muitas vezes acaba na própria dor. Às vezes é preciso abandonar tudo aquilo o que se é… mas desistência, medo, todo afastamento de algo que conheço só formavam mais cicatrizes que eu redescobriria no futuro. Um futuro que me concebia a falsa ideia de destreza sobre tudo aquilo que me pisoteia antes de, enfim, dançar com as pontas dos pés sobre um percurso remoto.
Tentei escrever sobre ele no dia de ontem. Duas ou três linhas fracassadas. Talvez tenha escrito muito mais pelos suspiros debaixo de seu peito nu, talvez seu toque tenha jorrado meu ser de confiança afável de forma a me carregar por onde meus pés já não alcançavam. Caminhou com os lábios sobre a minha pele fria, criou diálogos entre minha carne e suas mãos. Ele é um sonho bom com data de validade. Ele é a própria noite, que inspira desejo de liberdade mas mantém pés leves no chão. Ele é uma noite de insônia. “Você nunca dorme e nunca acorda de verdade”. Era como tatear um quarto escuro com uma única janela pro luar. Era como esperar que o mar me devorasse, ansiando sentir algum medo que enaltecesse a vida, enquanto ele me regurgitava como numa imensa ressaca de décadas de embriaguez. Como me sentar sobre a superfície, assistir toda a água se alinhar ao horizonte com nada mais além de um corpo encharcado e pulmões cansados. E algum dia, será sobre fitar e não só entender que resiliência não se trata sobre correr na direção oposta, mas permanecer onde um azul imenso me cobre dos pés à cabeça, permanecer e me permitir ser assistida, e conjecturar um momento, um novo ensejo, preferir que amanheça. Mas eu ainda sou apaixonada pelas estrelas…
Thayná Lofiego