Hoje é dia 28 de Fevereiro.
Hoje eu estou preocupada com o fato de não ter dia 29 de Fevereiro. Um dia que eu poderia contar e simbolizar como “um mês que meu pai faleceu”.
Eu pensei nisso desde a semana passada. Eu pensei nisso como algo ridículo. Algo tão ridículo quanto a minha vontade de que meu pai visse eu me formar na faculdade.
O mundo é imenso e muito maior do que a minha capacidade de mensurar qualquer coisa. E ainda assim, não existe lugar nesse espaço tão imenso que eu possa recorrer pra matar a vontade de vê-lo, tocá-lo ou ouvir sua voz.
Quando meu pai não estava contente, ele conseguia gritar de uma forma que as paredes de casa tremiam. Isso dava medo. Mas o silêncio hoje, me apavora! E o medo das coisas que eu posso sentir ou fazer são ainda maiores.
Há exatamente um mês atrás eu pensava, durante o dia todo “amanhã eu vou entrar no hospital, parar do lado do leito dele e dizer ‘você sempre esqueceu o dia do meu aniversário, mas hoje eu estou aqui pra te lembrar’ e dizer ‘hoje é meu aniversário'”. Isso nunca aconteceu.
Nesse meio tempo eu tento encontrar força, pq não é possível matar a saudade, como não foi possível dizer que era meu aniversário e não é possível criar um simbólico 29 de Fevereiro.
O vazio fica cada vez maior.

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Não existe título pra isso

De qualquer um dos mais de 300 dias do ano, hoje, eu completo 24 anos e meu pai completa uma semana na UTI. Queria ser uma dessas pessoas que não se importa muito com o próprio aniversário, mas o tempo tem sido um professor e tanto. Com 15 anos eu fui diagnosticada com uma doença autoimune, eu descobri que não voltaria a ser atleta e ficaria, pelo menos, 6 anos acompanhada por um tratamento doloroso. Quando se tem 15 anos, 6 anos é quase metade da idade que você tem. Quando se tem 15 anos, tudo parece que não vai ter fim. Depois de longos 6 anos, eu precisei cuidar dos resquícios da doença e do próprio tratamento, eu precisei olhar mais fundo e admitir que a depressão estava ali todos esses anos. Eu tive que enfrentar a mim, mais uma vez. Com 23 anos eu senti que renascia, eu senti deixar grande parte de todo aquele sofrimento pra trás. Eu estava pronta, de braços abertos pra tudo que o Universo me reservasse aos 24 anos. E meu mundo começa a desmoronar, mais uma vez. Eu nunca tive a necessidade de aparentar estar feliz aqui, porque as coisas que eu colho simplesmente sendo humana nessa rede de aparências, são muito mais valiosas que essa máscara quase obrigatória.
Eu aprendi a não ter vergonha de quem eu sou, da minha sensibilidade exacerbada, da intrínseca necessidade de correr com as palavras quando não cabe mais nada aqui dentro. Eu aprendi que eu estou tão suscetível a erros quanto quem errou comigo, ou quem eu julguei. Eu aprendi a ter humildade e aceitar que existe algo superior a mim. Aprendi a engolir meu ego quando entendi que as coisas nem sempre serão como eu quero, mas que elas são exatamente como devem ser e que resistir é tolice. Aprendi a sangrar de peito aberto e agradecer pela dor, agradecer da forma mais sincera tudo que a dor já me ensinou.
Poucos dias atrás, eu fiquei do lado do leito do meu pai, eu me lembrei que no último dia que ele esteve em casa, indo pro hospital ele me pediu pra orar por ele. Eu não oro, não da forma convencional. Mas eu orei, naquele momento enquanto tocava seus cabelos. Orei em silêncio e de olhos fechados, ele chorou. O Universo sempre teve uma forma engraçada de conversar comigo. Ter meu pai nessa situação me fez questionar muito sobre o que é vida, o que é vida quando você está sendo amparado por máquinas? O que é vida quando você não responde verbalmente, quando não consegue segurar a mão de alguém? Quando você precisa de ajuda pra respirar? Quando aquela lágrima caiu, eu entendi. E entendi que nós somos seres transcendentes sim! Entendi que amor… amor de verdade é a coisa mais valiosa e poderosa que nós somos capazes de conceber.
Tudo o que eu quero hoje, é ser alguém melhor. Alguém melhor do que eu fui com 15 anos, alguém melhor do que eu fui ano passado, alguém melhor do que eu fui ontem. A vida não tem sido tranquila, eu venho lutando diariamente por anos. E é com a maior sinceridade que existe e cabe dentro de mim que eu agradeço por isso!

* Eu escrevi esse texto ontem, um pouco antes de dormir. Eu só mudaria o começo… De todos os mais de 300 dias do ano, meu pai, com toda sua força e todos os valores, sendo uma das pessoas mais incríveis que esse mundo já conheceu, deixa a maior herança que qualquer ser humano pode deixar. No dia do meu aniversário, meu pai descansa! Que todo nosso amor possa guiar seu caminho daqui em diante! ♥️

Que bom que eu te faço feliz

Tive um breve sentimento sobre querer mudar padrões de escrita e automaticamente enfrentar um confronto da minha autenticidade. Percebi tão de repente o quão intrínseco estava, para mim e tudo o que faço, a mudança. Nós criamos uma forma de medir o tempo na tentativa de enxergar, tornar mais palpável e compreensível toda a mudança que nos cerca e que nos preenche as vísceras. E foi nesse escuro caminho dos anos que raios de possibilidades nos guiaram. Tenho pensado muito sobre escolhas, sobre não ter ideia do há por detrás de uma porta e no quão frágil é esse segundo de atitude. Quantas dessas abrimos e quantos caminhos jamais conheceremos das que deixamos pra trás. Quantas possibilidades desconhecidas se tornarão arrependimento? Quantos fardos a mais uma mente pode carregar? Quantos sentimentos estarão falsamente escondidos atrás das outras oportunidades? Começo a cantarolar letras de músicas que dialogam comigo sobre esse padrão, esse padrão de manter constante mudança… Aqui está o padrão de que nunca deixarei de ser constante mudança.
Ainda que sejam os mesmos medos, que evite olhar para o passado e apesar do constante peso que mantém meus pés firmes nesse chão, alterar o passado nunca será escolha. E continuo a desejar que minha mente não crie novas histórias quando tudo o que meu corpo precisa é descanso. Eu abro mão de tudo agora, de tudo que resisto a aceitar, de perseguir meu próprio passado como se pudesse descobrir brechas que o modifique… eu abro mão de voltar, porque nunca tive essa escolha e escolho deixar de sofrer diante do nada. Eu escolho mudar.

Domenicque II

Parte I

― Domenicque!! Está perdendo a audição junto com seus pulmões? Larga isso e venha até aqui!

A voz vinha a uma distância suficientemente boa das minhas costas para me trazer de volta à realidade, mas não o bastante para me assustar. Notei que a chama do cigarro já estava tão próxima dos meus dedos a ponto de arder minha pele, apenas soltei o que restou dele, num movimento leve e sem retirar meu calcanhar do chão, pisei naquela bituca. Dei um breve sorriso na direção de Augusto, o qual devo ter ignorado nos últimos segundos mas que, felizmente, por isso, matou a esperança de estender aquele diálogo insuportável. Me levantei da pequena escada que ligava o jardim à varanda da casa do velho. Alguns metros dali minha mãe me fitava com uma expressão impaciente e quase furiosa, o que seria completamente natural, não fosse o fato de estarmos num velório. Parei de pé na ponta da escada, guardei minhas mãos nos bolsos de uma jaqueta jeans velha. Minha mãe estava parada segurando a porta com uma das mãos, a outra apoiada na cintura do lado que o corpo pendia, jogado todo o peso do corpo em uma perna só, fazendo com que apenas o salto do outro sapato encostasse no chão. Antes mesmo que eu pudesse começar a andar, caminhou até mim.

Minha mãe era uma mulher que carregava cansaço demais, mais do que seria natural para os seus 39 anos. Tinha pele clara, exceto ao redor dos olhos; seus cabelos não eram tão hidratados, o que a própria cor loira artificial explicava; não era extremamente magra, mas seu corpo enfatizava alguns ossos, até mesmo ou talvez, principalmente os do rosto, o que a mantinha com a aparência relativa a apetite ou só escassez de alguma coisa.

― Eu não tenho o dia todo, você precisa ver algo! ― disse enquanto segurava meu braço com delicadeza e caminhava comigo até a porta ― Aliás, não acredito que voltou a fumar aquilo! ― olhou por cima dos ombros ― E quem é aquele rapaz com quem você conversava?
― Augusto, ele estuda comigo, mãe…
― O que ele está fazendo aqui? Ele conhece o Sr. Hélio? ― se corrigiu um segundo depois, como se faz com uma recém morte ― Conhecia…?
― Eu não sei… ― não me recordava de nenhum momento que Augusto dissera algo sobre o velho ou que possivelmente teriam se conhecido ― Na verdade, eu acho que não.
― Ah, e nem me faça começar a falar sobre… isso é roupa para vestir hoje? ― continuou como se nem tivesse me ouvido.

Já estávamos dentro da casa do velho, na cozinha havia um grupo pequeno sentado em volta da mesa, duas pessoas de pé encostadas na pia conversando. Todas elas viraram os olhos na minha direção rapidamente, desistiram como se não houvesse nada ali e em uma fração de segundos, quase como se tivessem ensaiado, voltaram a me fitar. Eu podia sentir a atmosfera naquele instante, como se nem dizer uma única palavra aquelas pessoas pudessem gritar contra mim o tamanho do estranhamento em ter minha pessoa parada naquela cozinha, com minhas calças jeans, um tênis que estava comigo a tempo o bastante para contar uma história só pela sua aparência, uma de minhas tantas camisetas brancas sem estampa e uma jaqueta jeans, a qual nunca soube como fora trazida até meu guarda-roupa.

― Tá vendo? ― minha mãe desapontada por estar certa sobre minha roupa inadequada.

Minha mãe seguiu me conduzindo até um hall que separava a cozinha da sala de estar. Me parou com as duas mãos dessa vez, me encostou gentilmente contra parede como quem iria me contar um segredo. Espiou na direção da sala de estar de forma nada sutil, retornou a me olhar com semblante misterioso.

Continua…

Sobre resignificação da bebida alcoólica

Bebida alcoólica sempre esteve presente na minha vida, mesmo antes de eu ingerir um gole sequer. Esteve presente também em um contexto maior, antes mesmo de eu nascer, tendo (nas duas partes da família) parentes próximos alcoolistas. Raras as vezes que as festas de família não incluíam bebidas. Com mais ou menos 4 anos de idade, eu quase virei um copo de whisky pra dentro da minha boquinha, que mal suportava o gás do refrigerante, o que foi piada durante muito tempo. Mas era evidente que eu tinha uma curiosidade instalada, que eu, honestamente, não seria capaz de distinguir e identificar quando começara. Eu me lembro que cerveja era uma bebida típica nos finais de semana em casa, nada em excesso, mas o suficiente pra despertar em mim uma vontade de experimentar aquela bebida proibida que minha mãe usufruía enquanto cozinhava. E que fique claro, eu não estou e não acusaria meus pais ou parentes como culpados da minha história com relação ao álcool. Acredito que o ambiente tenha sim favorecido de alguma forma, mas fica claro que intrinsecamente isso já estava em mim e que, se tornaria minha responsabilidade, cedo ou tarde, aprender a lidar com isso, tendo em vista que é uma droga lícita presente em vários outros cenários (e mais tarde ainda aprender a lidar com as ilícitas, mas vamos manter o foco aqui).

E quando você realmente começou a beber? Por incrível que pareça (e pode não parecer relevante, mas eu espero conseguir explanar mais adiante), eu tive contato com cigarro antes de efetivamente ter bebido o suficiente para ficar bêbada. Meu pai era fumante, então o acesso ao cigarro era muito fácil também. Eu fumei a primeira vez com 11 anos e o mais “engraçado”, é que eu tanto era uma criança, que em um final de semana eu roubei um cigarro do maço do meu pai, escondi em uma caixa de boneca, e quando o final de semana passasse, eu finalmente estivesse sozinha, eu experimentaria. Bom… eu ODIEI cigarro! Ah, então você não fumou mais, certo? ERRADO! Eu fumei na tentativa de fazer meu corpo se acostumar com aquilo. Mas o texto “néra” de bebida? Sim, mas já identifiquem uma CRIANÇA procurando por um passatempo meio esquisito, que vai fazer sentido (pelo menos, pra mim, faz).

Então, mulher? Quando você começou a beber? A primeira vez que eu fiquei bêbada foi com 16 anos. “Nossa, Naná, jurava que você ia falar uns 12 KKK”. Então, mas lembra que eu tava ocupada lá tentando gostar de cigarro? Cigarro me decepcionou drasticamente. Mas a primeira vez que eu bebi litros de cerveja, eu me senti no paraíso! O fato de eu não ter conseguido o que eu queria com cigarro, fez aumentar muito minha expectativa com relação à bebida e consequentemente, minha satisfação com a mesma. Eu nem sabia o que eu procurava com cigarro, mas eu queria saber o que levava as pessoas a fumar. Eu não sabia o que esperar de bebida, mas queria entender porque usavam tanto. E eu percebi que a bebida me tornava menos tímida (e eu era muito), mais alegre, mais sociável, divertida… então a bebida se tornou uma oportunidade de uma vida um pouco mais animada…

Eu percebi que nem tudo eram flores nos meus dois primeiros relacionamentos amorosos. No primeiro, eu já tinha tomado um pouco de consciência do quanto exagerar na bebida me fazia mal. Então foi a minha primeira tentativa de não beber mais: não beber porque meu namorado não gostava. É um pouco mais complexo do que isso, mas eu me convenci de que estava fazendo isso por outra pessoa (e pra não acabar sozinha). E eu não sei se eu preciso explicar porque isso não deu certo, mas vamos colocar dessa forma: qualquer coisa em mim que me fazia beber em excesso, estava em mim e não no outro, logo, tentar parar de beber nessas circunstâncias era inútil.

Meu segundo relacionamento foi um pouco mais conturbado, eu agora não só tinha consciência do efeito do excesso de álcool em mim, como me deparei com uma agressividade e sensibilidade bem diferentes do que quando eu estava sóbria. Isso não acontecia (ainda) no contexto “família” e nem “amigos”. Eu era (e ainda sou, um pouco, por mais que não pareça) extremamente travada no que diz respeito a externalizar sentimentos, fosse verbalmente, fosse com qualquer tipo de demonstrações, etc. A bebida era um caminho de conseguir expor meu descontentamento sobre aspectos do meu relacionamento, que eu não tinha ainda descoberto ferramentas para lidar ou discutir. Minha imaturidade emocional adicionada à bebida resultou em caos, por vezes. Despertou em mim uma agressividade descontrolada em momentos inoportunos, auxiliou com que eu desenvolvesse um sentimento de vitimismo (porque eu não me responsabilizava pelas coisas que eu expressava bêbada, não era “eu”) e gerou muita confusão sobre só conseguir acessar alguns sentimentos com uso de álcool.

Eu também criei o hábito, bem cedo, de beber sozinha. E se bebida era pra me fazer socializar, me tornar menos tímida… para quê beber sozinha? E aqui foi onde o problema maior se instalou (eu recebi um comentário bem pertinente sobre os storys em que eu trouxe esse assunto à tona, de que não é o vício em si que leva uma pessoa a cometer suicídio, mas que o vício é um aspecto sintomático de um problema maior, que eu concordo completamente e é isso que eu tenho em mente como objetivo de contar tudo isso). O beber sozinha me trouxe a ideia de que eu precisava de algo externo (no caso a bebida, mas poderia ter sido o cigarro, poderia ter sido maconha, outras drogas, poderia ter sido café, açúcar, carboidrato) para me sentir bem comigo. Eu conseguia acessar todos aqueles outros sentimentos, ou conseguia afastar outros, a bebida era útil para relaxar meu corpo e minha mente de coisas que eu preferia evitar trabalhar em mim. Nessa época eu já tinha sintomas de depressão, mas eu estava longe de admitir a mim. E quando eu falo sobre a dificuldade em admitir alguns comportamentos, é porque existia um bloqueio enorme em identificar sentimentos e pensamentos extremamente autodestrutivos. Eu sentia que eu devia ser mais bonita, mais inteligente, mais poderosa, mais magra (talvez eu escreva sobre isso um dia), e beber sozinha era uma forma de tentar calar todos esses pensamentos, afastar partes minhas de mim, não entrar em contato com coisas que me assombravam. E eu aprendi que não dá pra fazer isso. Isso cresceu tanto durante anos, até eu realmente cair em uma depressão mais forte, onde nem a bebida podia me fazer relaxar, nem por um segundo.

SE VOCÊ JÁ TEVE DEPRESSÃO E/OU IDEAÇÃO SUICIDA, ESSA PARTE PODE SER UM GATILHO, ENTÃO NÃO LEIA. PULA ESSE PARÁGRAFO.

Eu pensei muito, mas eu não conseguiria escrever sobre o dia que eu tive ideação suicida, mas eu posso descrever um pouco sobre o quão assustador é, e o quão gradativo foi. E claro, como a bebida se estabeleceu nessa conjuntura. Eu fiquei, pelo menos, 6 meses estranhando muito a minha própria imagem, pensamentos e comportamentos. Era como não conseguir acordar de manhã, levantar mesmo assim, fazer tudo no automático, me cobrar incessantemente por isso, literalmente ver o mundo com menos cores, não sentir entusiasmo com nada, conversar por praxe, rir por conveniência, não querer voltar pra casa e junto com tudo isso, me preocupar muito com tudo e ficar extremamente estressada com absolutamente tudo que saia do meu roteiro de dia “normal”. Eu tinha cada vez mais pensamentos de que minha vida não tinha importância, porque seria tudo automático até eu morrer, então, que eu morresse logo. E eu me convencia com “tá tudo bem, eu não vou me matar, só que eu não me importaria se eu morresse hoje”. E em outros momentos “mas se eu quisesse me matar, como eu faria?”. Nesse momento, eu planejava minha própria morte sem nem me dar conta. Eu comecei a beber muito. Muito mais do que o meu normal, que já era muito. E vale dizer também, que durante todo esse tempo, inúmeras coisas aconteceram pra que isso se agravasse. Pensamentos como esse que só me ocorriam uma vez na semana, começaram a aparecer mais vezes. Mais ideias sobre meu próprio suicídio surgindo enquanto eu escovava os dentes, tomava banho, caminhava para o trabalho, ia dormir… Até o dia que eu comecei a sonhar com a minha própria morte. Eu postava em redes sociais músicas como Mad World “The dreams in which I’m dying are the best I’ve ever had” (os sonhos nos quais eu morro são os melhores que eu já tive), Migraine “Sundays are my suicide days” (domingos são meus dias suicidas), e aqui fica um adendo: se vocês virem alguém postando qualquer coisa desse tipo, fiquem atentos sim! Nossa mente pede ajuda mesmo sem a gente notar, de formas variadas. Sonhar com a minha própria morte foi o ápice do fundo do poço que eu estava (isso não faz sentido, eu sei). Eu fui tomada por um medo imensurável de mim mesma. Eu era ali, a maior ameaça pra mim. A pior companhia também. Eu bebia. Às vezes eu bebia pra matar essa parte horrível de mim. Às vezes eu bebia pra matar a parte boa.

Eu não estou me expondo à toa, mas tudo que eu vivi e o que eu tenho observado de pessoas próximas ou não a mim, é o prazer do descontrole quando se está sob efeito de alguma substância. É o precisar usar algo para relaxar o corpo, quando eu desconheço formas saudáveis de lidar com os meus próprios conflitos internos. É o querer fugir do fato de que eu preciso mudar de emprego, de relacionamento, de costumes, mantendo sempre presente alguma coisa que me afasta desse enfrentamento. É o tornar natural a dor de cabeça do dia seguinte, os claros sinais do corpo de que aquilo é demais, de me prejudicar, me ferir a troco de uma vida falsamente mais leve e divertida. E quando tudo isso fica demais e não dá pra fugir, existe um risco eminente de tentar usar álcool na atitude suicida. E esse é o maior motivo pelo qual eu quis escrever sobre álcool específicamente.

Sobre resignificação.

A primeira vez que minha psicóloga me disse isso, eu quase ri na cara dela, o que não ia ser muito agradável pra ninguém, convenhamos. Eu achei que fosse só um nome bonito pra “parar de beber”. Eu voltei a tentar parar de beber, dessa vez com menos sucesso ainda. Eu claramente não bebia tanto quanto antes, pelo menos, não sempre, mas eu ainda bebia frequentemente. Era difícil estar em um ambiente com bebida e não beber! Meu “parar de beber” não durava uma semana. E isso aqui vai parecer discurso de convertido da igreja universal, mas não é! Calma! Terapia me ajudou muito, mas ter feito as pazes comigo, trazendo uma fé pra minha vida, foi essencial. E não virei crente, na verdade eu conheci um pouco sobre Xamanismo, e fez sentido pra mim. Mas poderia ter sido QUALQUER COISA, poderia ter sido catolicismo, umbandismo, yoga, música, pintura, poderia ter sido minha própria faculdade, jardinagem, etc. Qualquer atividade ou ritual que te ajude a se conectar com você mesmo, é essencial. Eu conheci a maior felicidade da minha vida o dia que eu consegui entrar em contato comigo, com todas as partes. Que eu consegui me perdoar pelo mal que eu me causei, que aceitei que eu não sou perfeita, que eu realmente me enxerguei e me percebi como ser humano incrível mas também falho.

Uma mulher que eu sigo há muito tempo e que sempre que eu posso, cito nos meus textos, a Flávia Melissa, já contou várias vezes sobre como ela se libertou de algumas drogas recreativas, do quanto isso gerou também mudanças no seu círculo social. Eu sempre tive receio disso, como parar de beber, quando a maior parte dos meus amigos bebe? Como não beber em uma festa ou balada?

A resignificação foi autoexplicativa no momento que eu tive a chance de usar o álcool, em um dia que fugir de mim seria delicioso demais, mas eu não quis! E como chegar nisso? Como eu disse e acreditando na individualidade de cada um, eu não consigo criar nenhum tipo de caminho pra salvação, mas o dia que essa conexão com você mesmo acontece de verdade, ela se torna uma energia que se irradia, é quase palpável. Eu chamei isso de deus interior (o que é só um nome), poderia ser o que chamam de felicidade, de gratidão, de amor. Esse sentimento é como um pilar, é transformar você mesmo no seu próprio lar, estar confortável com quem você é. Automaticamente o mundo todo entra em sintonia. Esse sentimento faz parte de um autoconhecimento (que, no meu caso, eu adquiri boa parte em terapia) que consequentemente eleva também sua autoestima. Com tudo isso mais desenvolvido é extremamente difícil, quase impossível, querer sair disso. Ficar bêbada me leva à uma situação oposta dessa conexão, é quase como me perder dentro de mim de novo. Então, talvez resignificação não seja parar completamente de beber, mas procurar um meio saudável de lidar com o que me faz perder o meu autocontrole, com o que me faz querer ficar distante do que me incomoda em mim e bebida se torna um segundo plano, algo que eu vá usar sem perder a noção do que é limite para mim. Eu estou nesse processo de entender que, eu nunca soube o que era limite, porque eu nunca tinha realinhado a minha pessoa às minhas estruturas física, mental e espiritual (repetindo que espiritualidade não é religião).

Eu não entendi completamente a resignificação, pelo simples motivo de que eu ainda tenho muito trabalho de autoconhecimento a ser feito. Eu ainda escorrego em excessos de álcool, manias, redes sociais, compulsões por comida, etc. Mas isso foi algo incrivelmente novo pra mim, foi estar em um estado de consciência muito diferente de tudo que eu tinha sentido até hoje. Eu consegui beber muito pouco e me satisfazer por gostar do sabor da bebida, eu consegui não beber quando realmente isso me faria muito mal e consegui identificar ter passado do meu limite, em um estado de embriaguez que, antigamente, seria “só o início”.

Vita Lineae

Se estou certa de quem sou, que outros olhos eu precisaria encontrar para ter coragem de ser sincera?

Eu finjo pra mim que preciso me alinhar aos desejos mundanos. Enquanto minha alma anseia por paz.

Onde está meu coração enquanto eu busco, incessantemente, engolir todo sentimento que já não tem espaço lá fora? Eu quase pude ouvir, novamente, o som de sua voz ditando o toque das minhas mãos contra as suas. Eu pude declarar, com toda energia que demanda, o que eu possuo como afeto, enquanto pequena parte remota do passado, do quanto admiro e anseio por teu bem se espalha gentilmente, como também é aceito. Calamidade seria se valor nenhum tivesse, se fosse quase como gritar com o rosto e os olhos fitando a parede fria, numa sala aberta demais pra produzir eco, enquanto o único retorno que tenho, é minha própria voz que suplica ser ouvida por outros ouvidos que não os meus. No fundo é isso. Mas temo que continue sendo essa voz que só existe na minha cabeça, que por vezes se despede como lágrimas, outras sangue… Mas não é culpa tua. A culpa nem é do desejo, ou do medo dele. Toda morte implica mudança. E tudo em que existe vida, incontestavelmente conhecerá o gosto da morte. O que justifica uma vida bem vivida? Talvez afeto. Enquanto penso em vida como um montante de acontecimentos; uma relação, um projeto… basta existir afeto ou é necessário que o conheça? Afeto não demonstrado deve ser como a pele de um abortado, é só metade vida que não conheceu o mundo… Quase um projeto que deu de cara com a morte antes mesmo que pudesse ter voz. Eu pensei que talvez, e só talvez, isso seja se matar lenta e gradativamente. Viver com medo, evitar as rejeições, não ter voz… não ter voz. Não ter voz é afogar a si mesmo dentro de si. Até meu corpo morrer, eu preciso encontrar uma forma ter vida. Talvez seja nessas linhas. E delas não me envergonho nunca. Eu estarei viva enquanto qualquer par de olhos percorrer cada uma dessas linhas.

Thayná Lofiego

Vale Indigentiam

A vida se faz do acreditar nos ventos. Eu sempre senti que algo, além de tudo aquilo que se vê, de tudo aquilo que me toca, poderia transformar grande parte do meu ser em paz.

Eu aguardei, por ora, sentada numa grande janela de uma casa antiga. Por ora, caminhando pelas ruas da mesma cidade que permeio desde que existo. Por ora, contando as horas que faltavam pra dormir. Por ora contando os minutos que me despiam o sono, enquanto o teu nome se espalhava como eco em todos os buracos de meu peito. Eu deveria crer nos ventos. Por ora, eles escancaram a falta de algo que ainda não se foi, como fosse a última vez, que por vezes… simplesmente é. O vento carrega o tempo, leva com ele o peso das horas. Por ora, leva o peso que envolve meu peito pela lembrança de um abraço. Por ora, traz com a leveza de uma correnteza, cada lembrança, sem aviso, como uma tempestade sem trovão que se abre na mente e jorra cada fio de pensamento inundado de sentimento contra meus tímpanos. E as vozes que eu escuto cantam as canções que eu danço sozinha no escuro.

Eu aguardei, por ora, caminhando depressa, tentando engolir cada partícula de ar que me mantivesse viva, que me ajudasse a nadar só pra mergulhar em mais um dia que eu desejaria estar morta. Por ora, sorrindo aos ventos e encharcando minha pele do calor ameno do sol, encarando as lágrimas que eu nunca derramei como provas de missão cumprida, que massageavam meu ego de ternura por cada memória. Enquanto tua pele nem ao menos se preocupava em apagar o calor da minha.

Eu aguardei, por ora, tão próxima ao chão gélido. Por ora, deitada contra as paredes. Por ora, carregando a insônia por todos os lados da cama. Por ora, trazendo peso aos travesseiros. Por ora… eu ainda aguardo. Eu espero os ventos trazerem uma forma concreta de rabiscar um adeus que tu nunca escrevestes. Me ensinastes a diferença entre sentir falta e sentir saudade, teoricamente. Enquanto eu canso de esperar, eu busco ferramentas no universo, que sustentem a solidez de tudo que se petrificou em saudade. Enquanto aguardo, enquanto canso de esperar, encaro o beco sem saída, o medo da falta, construo e moldo a falta do adeus em meios rabiscos confusos e perdidos. Preencho a falta escrevendo sobre o que sei sobre saudade. Declaro meu adeus assim, por ora.

Thayná Lofiego