Sanguinem Somnia

É como se a minha dor de cabeça fosse emprestada. Parte de todo esse corpo que hoje pesa, apenas flutua por cima de todos os processos de cura. O sangue que eu encontrei em contato com esse mundo externo, seca. Cada cicatriz se fecha. E ainda há muito mais carinho pelas dores que foram provocadas pela minha própria insanidade latente. O silêncio é parte essencial da falta, e nesse imaginário, quem menos grita pra dentro de si, menos entende o lado de fora. Não existem passos longos ou curtos daquilo que deve ser vivido. Existe a imensidão da ilusão de tempo. A gente inverte os medos, se inverte, se torna avesso, foca nos maiores prazeres ou sofrimentos. E um dia a terra é jogada, como quando sucumbe o corpo, e se a alma nunca morre, quando e onde conseguirei aniquilar a ideia dele? E uma vez que se vive já não existe lugar no mundo longe o suficiente pra fugir de uma ideia. Uma vez que se sente, já não existe ideia que coloque ponto final nas memórias. E há de se esperar que as lembranças já não carreguem o mesmo sentimento, e eu rompo com tudo, na esperança que minha ilusão de tempo tome conta de riscar as reticências. Eu abafo o silêncio ensurdecedor que sempre toma espaço da minha mente, como uma câmara sem forma, que se torna independente, desligada de um corpo. Flutuando com uma visão dividida, como a de alguém que observa o próprio corpo num caixão.
Todo e qualquer movimento se tornou estático ou, ao menos, mais lento. A visão turva do presente, agora me convida a cerrar os olhos. Como o abajur que cai, se quebra, e desperta os que ficam no quarto escuro.

Thayná Lofiego

(12.09.2019)

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Your future self is watching you right now through memories

Todas essas coisas me remetem à mesma lembrança. Àquela mesma sensação. Eu criança, e só poderia sugerir que eu tinha por volta dos sete anos de idade, mas sem nenhum tipo de confirmação ou dado a acrescentar que pudesse justificar. Mas eu sinto que por volta dos sete anos, no sofá de minha casa, sentada enquanto algum jogo de video game esperava minha real intenção de continuar a me aventurar… E aquela luz que entrava pela janela, do sol no final da tarde, que faz parecer que despedidas possam ser confortáveis e amenas, ao mesmo tempo que convida a ser refletida e adorada entrava na minha sala, sem nem ao menos permitir que seu calor tocasse minha pele. Mas eu estava ali, envolvida pela luz e sombra, pelo clima, pela sensação, que de tão forte, ainda pode ser revivida ao pensar em me recolocar naquele lugar do passado.
Sensação de segurança essa, que em toda dificuldade me convida a relembrar. É quase como se aquela criança ainda existisse em mim, enquanto não existe mais no mundo. É como se naquele momento eu tivesse tido o mínimo de conhecimento de que eu viveria inúmeras coisas das quais eu não gostaria na vida. E nos momentos de dor, eu converso com aquela criança. Nos momentos tristes, alguma coisa me faz querer contar a ela que a vida não será fácil, e que ela então, deveria guardar bem na memória aquele segundo de paz. Mas de alguma forma eu sentia isso, quando criança. E de alguma forma, é esse exato instante no qual o permaneço ao querer negar a minha realidade atual. Talvez eu tenha conversado comigo sobre coisas que eu nem imaginaria que aconteceriam.
E o desejo de querer ser aquela criança. De não ter feito tantas escolhas, de não ter sido machucada ou ter machucado da forma que aconteceu. Eu desejo poder ser alguém que não conheceu tantas pessoas. Eu desejo ter o mínimo de paz que aquela criança tinha. Mas depois de tantas coisas que eu confessei a ela, eu não poderia dizer se a paz continua ininterrupta.

Thayná Lofiego

Era pra ser e não foi

Dos sonhos que jamais realizaremos. Das inúmeras coisas do meu dia que terminarão não compartilhadas. Da espera pela sua chegada que será infinita. Dos filmes que nunca vimos. Dos planos eternamente adiados. Das noites que não estaremos juntos. E músicas que não serão ouvidas. Dos bares aos motéis da cidade que não conhecerão nossa risada. Do último beijo que eu não me recordo. Das ideias trocadas. Das coisas que surgirem e jamais serão de seu conhecimento. Da dúvida à falta. Do desejo ao medo. Do quase “sim” que infelizmente, por sorte, foi “não”. Do som ao silêncio. Da esperança ao fim. Do brilho à escuridão. Do que era só o começo. Do que não deveria doer. Do que não era cobrança. Do que eu não deveria sentir saudade, mas vou. Do que me testa. Do beijo mais significante de toda uma vida. Do que eu sei que é mentira. Do excesso de entusiasmo à falta de atenção. Da amizade corrompida. Das viagens que nunca viveremos. Da segunda chance. Dos jogos falsamente perdidos. Dos copos na mesa. Das roupas ao chão. Da fragilidade latente. Do mau uso da inteligência. Do romantismo à manipulação. Da lágrima ao vento. Da desculpa ao adeus. Do sol refletido nos olhos. Do sorriso ao olhar ensurdecedor. Dos ganhos às perdas. Das alianças ao anel perdido na gaveta. Do pai ao filho. E da filha ao pai. Dos segredos confessados. Do âmago da família ao berço. Dos cabelos à pele. Da excitação ao susto. Do justo ao desregrado. Do frio ao calor da pele. Da insegurança ao orgasmo. Do proibido à liberdade. Da proteção à violência. Da alegria à depressão. Do auxílio à dependência. Da dificuldade que se liquidou. Das fotografias apagadas. Da confiança nunca construída. Do pedestal imaginário ao limbo. Das carícias ao açoite. Da rotina à perda. Do pedido à traição. Da ânsia à fumaça. Da felicidade ao caos. Do nascimento à destruição. Do que até já foi sonhado. Do que poderia ser premonição. Do inconsciente ao ato condenável. Da gentileza à amargura. Dos presentes à ofensa. Da boa vontade à falsidade. Da importância ao vazio. Do que eu queria que fosse tudo, e acabou sendo nada. Do que eu jamais saberei. Do que devia ter sido amor. Do que poderia ter sido.

Do que era pra ser e não foi.

Do que era pra ser a última tentativa, a primeira certeza. Acabou se tornando a maior solidão compartilhada.

Autem Cor Meum Prope

Talvez um dia você desapareça aos poucos, como uma conversa que fica na lembrança e não deixa o mínimo rastro de escrita. Talvez eu encontre paz na ausência e na dúvida. Talvez eu nem tente lembrar dos sonhos que quase se transformaram em objetivos. Talvez não exista mais escolhas a se tomar. Talvez eu me banhe um pouco mais desse veneno. Talvez as coisas belas hão de ser encontradas debaixo de tanto pó. Talvez eu encontre um lugar onde só sentimento basta. E a memória da minha cabeça pousada em seu peito, do calor da sua pele e da voz sussurrada pela manhã, será apenas um longo e bom sonho distante. E se abraçar você silenciava minha mente, não ter você é silêncio ensurdecedor. E isso já nem é sobre orgulho, e sim sobre tato. Talvez minhas lembranças confundam o início com o fim, datas importantes e um rastro de esperança que ficou ali – jogado no canto de um quarto escuro – tão perto mas tão inalcançável. Enquanto meus olhos cerrados, na procura por calmaria assistem o nascer do sol, você se punha em uma outra esfera completamente desconhecida. Exercendo papéis diferentes, usando máscaras de luz e sombras. E você fica e vai. Fica como nada nunca esteve antes. E vai como tudo que é natural.

Giant Steps

Há meses não houve tentativa de descrever o intraduzível. Não houve página branca, palavras desorganizadas correndo por cada fluxo de pensamento e memória. Não houve o esquecer o mundo lá fora, zelar pelo pedaço de vida que atravessava minha pele, como o toque de quem reaprende a caminhar. Há meses não houve nada além da falta.
Anos sem qualquer coisa que interrompa o silêncio, produto de uma mente inquieta. Anos de uma inquietação tranquila, de luz sem calor, de escuridão confortável, de uma ausência tão presente que abraça, acalenta, mata e também morre.
Mas eu nem ao menos quero entender o que te trouxe aqui. Eu não quero contar os dias, medir esforços, calar o que meus olhos tentam dizer. Eu não quero explicação, não quero nada além do que eu já tenho: incerteza. Ainda que, em alguma esfera, em algum lugar dentro desses passos cobertos por risadas despreocupadas, exista uma certeza não palpável e multifacetada. A certeza de que o contorno do seu corpo continuará me convidando a ser uma extensão dele. A certeza de que é muito fácil agora quebrar meus padrões e esquemas de defesa e solidão. Certeza de que eu quero ouvir sua voz através do seu peito nu. Certeza de que as suas palavras são caminho para as minhas. Certeza de que eu não sei o que significa tudo isso, de que eu ainda estou limitada a compreender essencialmente como caminhamos a passos gigantes em curto período de tempo. E nem o tempo já é o mesmo. Talvez nem precise ser. Ainda assim, existe a certeza de que o tempo é agora, e o momento não poderia ser mais acertado.

Hoje é dia 28 de Fevereiro.
Hoje eu estou preocupada com o fato de não ter dia 29 de Fevereiro. Um dia que eu poderia contar e simbolizar como “um mês que meu pai faleceu”.
Eu pensei nisso desde a semana passada. Eu pensei nisso como algo ridículo. Algo tão ridículo quanto a minha vontade de que meu pai visse eu me formar na faculdade.
O mundo é imenso e muito maior do que a minha capacidade de mensurar qualquer coisa. E ainda assim, não existe lugar nesse espaço tão imenso que eu possa recorrer pra matar a vontade de vê-lo, tocá-lo ou ouvir sua voz.
Quando meu pai não estava contente, ele conseguia gritar de uma forma que as paredes de casa tremiam. Isso dava medo. Mas o silêncio hoje, me apavora! E o medo das coisas que eu posso sentir ou fazer são ainda maiores.
Há exatamente um mês atrás eu pensava, durante o dia todo “amanhã eu vou entrar no hospital, parar do lado do leito dele e dizer ‘você sempre esqueceu o dia do meu aniversário, mas hoje eu estou aqui pra te lembrar’ e dizer ‘hoje é meu aniversário'”. Isso nunca aconteceu.
Nesse meio tempo eu tento encontrar força, pq não é possível matar a saudade, como não foi possível dizer que era meu aniversário e não é possível criar um simbólico 29 de Fevereiro.
O vazio fica cada vez maior.

Não existe título pra isso

De qualquer um dos mais de 300 dias do ano, hoje, eu completo 24 anos e meu pai completa uma semana na UTI. Queria ser uma dessas pessoas que não se importa muito com o próprio aniversário, mas o tempo tem sido um professor e tanto. Com 15 anos eu fui diagnosticada com uma doença autoimune, eu descobri que não voltaria a ser atleta e ficaria, pelo menos, 6 anos acompanhada por um tratamento doloroso. Quando se tem 15 anos, 6 anos é quase metade da idade que você tem. Quando se tem 15 anos, tudo parece que não vai ter fim. Depois de longos 6 anos, eu precisei cuidar dos resquícios da doença e do próprio tratamento, eu precisei olhar mais fundo e admitir que a depressão estava ali todos esses anos. Eu tive que enfrentar a mim, mais uma vez. Com 23 anos eu senti que renascia, eu senti deixar grande parte de todo aquele sofrimento pra trás. Eu estava pronta, de braços abertos pra tudo que o Universo me reservasse aos 24 anos. E meu mundo começa a desmoronar, mais uma vez. Eu nunca tive a necessidade de aparentar estar feliz aqui, porque as coisas que eu colho simplesmente sendo humana nessa rede de aparências, são muito mais valiosas que essa máscara quase obrigatória.
Eu aprendi a não ter vergonha de quem eu sou, da minha sensibilidade exacerbada, da intrínseca necessidade de correr com as palavras quando não cabe mais nada aqui dentro. Eu aprendi que eu estou tão suscetível a erros quanto quem errou comigo, ou quem eu julguei. Eu aprendi a ter humildade e aceitar que existe algo superior a mim. Aprendi a engolir meu ego quando entendi que as coisas nem sempre serão como eu quero, mas que elas são exatamente como devem ser e que resistir é tolice. Aprendi a sangrar de peito aberto e agradecer pela dor, agradecer da forma mais sincera tudo que a dor já me ensinou.
Poucos dias atrás, eu fiquei do lado do leito do meu pai, eu me lembrei que no último dia que ele esteve em casa, indo pro hospital ele me pediu pra orar por ele. Eu não oro, não da forma convencional. Mas eu orei, naquele momento enquanto tocava seus cabelos. Orei em silêncio e de olhos fechados, ele chorou. O Universo sempre teve uma forma engraçada de conversar comigo. Ter meu pai nessa situação me fez questionar muito sobre o que é vida, o que é vida quando você está sendo amparado por máquinas? O que é vida quando você não responde verbalmente, quando não consegue segurar a mão de alguém? Quando você precisa de ajuda pra respirar? Quando aquela lágrima caiu, eu entendi. E entendi que nós somos seres transcendentes sim! Entendi que amor… amor de verdade é a coisa mais valiosa e poderosa que nós somos capazes de conceber.
Tudo o que eu quero hoje, é ser alguém melhor. Alguém melhor do que eu fui com 15 anos, alguém melhor do que eu fui ano passado, alguém melhor do que eu fui ontem. A vida não tem sido tranquila, eu venho lutando diariamente por anos. E é com a maior sinceridade que existe e cabe dentro de mim que eu agradeço por isso!

* Eu escrevi esse texto ontem, um pouco antes de dormir. Eu só mudaria o começo… De todos os mais de 300 dias do ano, meu pai, com toda sua força e todos os valores, sendo uma das pessoas mais incríveis que esse mundo já conheceu, deixa a maior herança que qualquer ser humano pode deixar. No dia do meu aniversário, meu pai descansa! Que todo nosso amor possa guiar seu caminho daqui em diante! ♥️