Lucem Rubrum Sanguinem

Eu caí sozinha em um espaço pouco confortável. Aprendi a recolocar meu corpo no lugar que já estava. Reaprendi a acordar de um pesadelo, ou ainda melhor, vivê-lo sem medo. Entre tantos espaços não preenchidos da minha cama, eu busco incessantemente algum vazio que substitua esse barulho aqui dentro. Como se já não fosse tão assustador encontrar minha cabeça vazia enquanto vagueio por tantos espaços. Como se eu continuasse esbarrando no mesmo móvel, que eu ainda não me acostumei, mas que é demasiado pesado para movê-lo sozinha. Como se aquela mancha de vinho no tapete, aquela mancha de sangue na minha roupa me perseguissem em outros tecidos, tecidos supostamente novos. E eu continuasse pisando nos cacos de vidro, dos espelhos através dos quais odiei meu próprio reflexo.

Minha carne já não é coisa tão jovem. Meu cansaço não conversa apenas com meu corpo. Tantas palavras circulam junto à minha corrente sanguínea, que se tornou impossível lembrar todas, impossível esquecer uma sequer.

Esse vazio não solicitou preenchimento de coisa alguma. Minha ideia obsessiva sobre teus passos, sua olheiras, tua forma de falar, transformou a cura de um trauma em um trágico espaço sem saída, sem início e sem fim. A cada transformação da noite em dia, uma esperança em forma de espasmo percorria cada centímetro da minha pele. Em constante mudança, eu mantive os pés firmes no chão, mais uma vez, sem nem ao menos crer que o mundo poderia se virar a meu favor, porque, para mim, os dados da sorte sempre foram cubos mágicos pra uma daltônica. Eu cresci esperando que alguém desvendasse a forma correta de todos os lados e todas as cores, e o que se escancarou diante de meus olhos, foram formas que pareciam certas, corretas e alinhadas com todo o resto do meu corpo. Tudo parecia vibrar bem quando aquelas cores estavam postas juntas, sempre parecendo todas iguais, enquanto eu me recordava a cada amanhecer que tudo mudava, menos minha incapacidade de enxergar cores.

Parece pouco provável que as coisas por aqui mudem, que eu encontre uma outra forma de enxergar as cores da natureza desse espectro romântico, platônico, doentio de viver a vida sempre com medo. Se o amor é o alimento da alma, o medo se alimenta dela. Por aqui anda mais escuro do que o comum, mas parece bem provável que eu tenha encontrado conforto no único pedaço que eu odiaria estar alguns anos atrás. Talvez, porque por aqui não existam cores, eu não preciso decifrar as cores do maldito cubo mágico que continua se mexendo sozinho, em algum lugar, apenas emitindo sons que eu preferiria calar. Estranho como se tornou sobre tentar calar o único som desse vazio envolto apenas por nada mais do que escuridão. Quando criança, a vida lá fora parecia Las Vegas, com todos os seus jogos de cores em forma de luz cintilante, os dados que pareciam ter combinações infinitas de sorte ou azar, dos baralhos que incitavam minha intuição a escolhas erradas. Inofensivas. Mas erradas. Ninguém te ensina, quando criança, sobre a possibilidade de acumular ausência de luz. Em algum momento deixou de ser sobre perder, mas colecionar e amontoar todos esses pesos e ir apagando a luz para não mais vê-los.

Apesar de daltônica, eu podia agora enxergar no escuro. Minha tentativa de fuga sobre todas as partes de mim continuam sendo areia movediça para dentro de mim mesma. Para dentro de todas as coisas que eu gostaria de poder expulsar, então eu só grito. E eu oro para nunca perder a voz. E escrevo, pra nunca mais morrer.

02.06.2020

Locus Nullo

Ninguém te ensina o que fazer diante de uma rejeição. Ninguém nunca se abaixou ao meu lado pra me ajudar a recolher os restos de tentativas, em vão, espalhadas ao meu redor. Nunca houve com quem realmente contar, pra me contar o porque eu continuo tendo tanto o que contar sobre a quantidade de buracos espalhados no meu espelho. Eu já tentei contar quantos são, mas essa tentativa é sempre barrada por um borrado que minhas lágrimas transformam minha vista antes de fluírem pelo contorno do meu rosto. E não é nem tanto sobre as lágrimas vistas, sobre as vistas perdidas dentre memórias ou as visitas que nunca chegaram. Não é sobre quem viu ou deixou de me ouvir.

Talvez rejeição seja a sensação de estar em uma grande festa, um lugar iluminado e várias pessoas ao meu redor. E dentre todas as informações realçadas pela luz, querer ser destaque. Mas o mundo no qual eu vivo não é uma festa. Não… Aqui não é importante o valor do tecido que cobre meu corpo, ou quantas vezes a luz reflete nos acessórios que eu passei horas escolhendo a dedo. Não importa pra que lado esteja o diabo do meu cabelo. Nem se meu corpo é esculturado por horas de exercício físico ou resultado da minha compulsão alimentar. Não, definitivamente ninguém se importa, com quão branco é meu sorriso (tampouco a espontaneidade que pode ou não estar ligada a ele). Porque nada garante que qualquer coisa que eu seja, ou que eu faça, me impeça de ser apenas mera passagem.

Os valores que permeiam esse mundo são outros. É importante que eu escolha a roupagem que irá mascarar meus defeitos ou desvalores. Talvez, seja importante manter minhas qualidades à luz, arremessá-las sempre que houver oportunidade de ser reconhecida. Muitas vezes minha personalidade pode ser reduzida ao meu corte de cabelo, ou talvez, seja importante mantê-los limpos, para uma ocasião inesperada que quase nunca realmente acontece. Talvez percebam de que tipo de arte eu me alimento, quais filmes fazem parte da minha trajetória e quantas vezes eu consumi a música que afetava outros estômagos. E minha real aparência seja o que eu posso vomitar dos restos de arte alheia.

Eu não quero parecer pessimista. Eu não quero querer parecer outra pessoa. Eu não quero ser diferente do que eu sou, ainda que o que eu sou, seja um enigma, até mesmo pra mim. Um enigma por detrás de roupas, luz, arte, sorrisos, gargalhadas perdidas entre dentes, choros desesperados à uma noite infinita, carência despojada por droga, passos largos e rápidos sem ter lugar para chegar. Não ter lugar pra chegar. Não ter lugar. Rejeição é não estar em nenhum lugar. Se sentir imensa num espaço tão pequeno, não saber o que fazer com o próprio corpo, porque ninguém te ensina o que fazer diante de uma rejeição. Rejeição é me sentir pequena demais, num espaço enorme, do qual eu preciso sair antes que me vejam aqui no chão, sem chão, sem perspectiva. Rejeição é não ter o que fazer com o próprio corpo. É desejar estar onde não se pode, e nunca querer estar naquele lugar, o de rejeição. É estar em lugar nenhum. Não ter lugar pra chegar. Ser rejeitado é ser diminuído ao ato de: não ser.

Quarentena

No invólucro dessas paredes, há uma ideia inverosímil de proteção. Mas a realidade lá fora, ultrapassa a pele que existe entre essa dor e tudo o que tem acontecido. E talvez, meu medo hoje, seja o acontecimento de ontem de inúmeras pessoas. Domingos são temorosos, bem como você sentia, pai. Por aqui, tem sido domingo todos os dias. Porque a vida parecia ter início às segundas-feiras, enquanto domingo ainda é, unanimamente, o pior dia da semana. Muito provavelmente por não temermos o fim, mas porque, talvez, o que doa mais sejam os recomeços. Não há certeza sobre qual será o ponto de partida. Nem mesmo a certeza de quando. Assim como é a morte, hoje é incerta, até mesmo, a mais desejável situação de vida.

Nocet Passion

Sobre todas as coisas cruéis demais que fazemos a nós mesmos quando mais ninguém nos vê. Os pensamentos de solidão, as sombras que bem conhecemos e tentamos incansavelmente iluminar, da trágica melancolia que insistimos em guardar um pouco mais, pra entender o que dizia aquela música triste, aquela pintura assombrosa ou o filme cheio de tragicidade que é facilmente comparado a algum momento dessa esgotável vida.
Talvez a mais cruel de todas ainda seja permitir se apaixonar. Se deixar levar por todos os impulsos permitidos nesse estado de quase doença. Permitir que toda essa química cerebral carregue meus braços ao encontro de outro corpo. Deixar que meu corpo inteiro sorria pro universo num imenso prazer cabal. Me propor a deixar de lado o medo que me protege, sem nunca ao menos conseguir esquecê-lo de verdade. Eu não me lembro de doença mais assustadora do que essa, que me faz sentir completamente só, perdida dentro de um espaço de mim imenso demais pra caber nesse universo para o qual sorrio, uma intensidade que faz cada gota de sangue arder em minhas veias, meu peito doer como num infarto precoce, meu estômago recusar se alimentar de qualquer coisa que não seja mais um momento, mais um minuto ou segundo com meu objeto de desejo.
Nada poderia ser melhor comparado ao clichê de sentir que ninguém, nunca, entenderia nem uma parte disso.
Mas eu me acostumei com cada parte dessa dor, com cada sintoma de uma doença que só cresce e só deixa cada vez mais explícita a real solidão.
E eu me esqueci que a paixão poderia machucar fisicamente, desse lado de fora do meu corpo. Eu jamais poderia imaginar que comigo seria um soco no estômago do lado avesso às borboletas nele. Muito menos no sangue que aqui arde, agora do lado de fora. Eu nunca imaginei lidar com o medo de quem dorme ao lado. Ultimamente, eu tenho aproveitado o medo da minha própria pessoa. Eu sequer tenho me machucado mais depois de ter sido ferida. Talvez eu tenha mais paciência com esse corpo, com essa mente, depois de ter vivido o impulso alheio contra ambos.
Alguma coisa aqui dentro morreu. Se foi tão fortemente, que eu nem ao menos consigo lembrar o que era. Mas morreu. Apesar do medo ter crescido com essa morte, essa coisa não é exatamente algo que me faz falta. No lugar dela há mais acidez, há espaço pra uma pessoa mais astuta, indiferente, meticulosa, lógica. Há muito mais espaço pra força.
Força que talvez traga o desejo de me apaixonar de novo, mais resistente às ardências, às dores, à doença que me faz ficar cara a cara com a morte novamente e rir dela. E que ela tire todos os pedaços que eu tenho aqui dentro, pra que eu me renove, que eu cresça e viva, até que eu realmente morra.

Cor Elasticis

Sua cabeça repousou sobre meu ombro, mas eu nem pude sentir as lágrimas que caíam. Acompanhando tal cena repentina, um pedido de perdão sincero, de energia humilde e melancólico como havia de ser. E com meus braços envolvendo seu corpo, depus crédito ao pedido e o ingeri como quem toma um remédio difícil de ser encontrado, como única solução de cura. O contato foi suficiente para que nos desprendessemos e pudéssemos continuar caminhando, e pela frente, havia um caminho íngreme que agora iríamos prosseguir sem os dedos das mãos entrelaçados.
Mas quando meus olhos se abriram no escuro, seu corpo não estava do meu lado, abracei gentilmente os lençóis que me cercavam. Compreendi ali minha psique como um lugar quase palpável, que agora se esforçava em demasia para unir peças inconscientes e preencher o mundo material com seus significados dispostos nas atitudes de simplesmente seguir enfrente.
E apartir de agora, nem a cor vermelha significaria mais sangue, e nem a dor do passado seria mais tão aguda. Talvez a cicatriz que eu mantive aberta para compreender um pouco mais sobre o que há aqui dentro de mim, possa finalmente ser vedada. E ainda que a pele que a reveste deixe uma marca de antiga ferida, esta não mais sangrara e nem deverá ser tratada.

Tenebris Arbitrium

Olhar qualquer foto sua perdida por aqui, é dolorido. Mas não tanto quanto não conseguir sentir tua falta, nem por um segundo. Eu sinto certo desgosto por saber que continuas por aí, andando como quem nunca feriu alguém. Escrevendo como se realmente significasse. Fingindo amar por meio de manipulação. É horrível ter sido parte da história de um homem cujas escolhas lhe transformaram em inesgotável fonte de rancor e melancolia. Eu sobrevivi a todos seus momentos de exaltação, que nunca foram puramente felicidade e nem nunca serão.

Alguns me dizem que o universo é sábio, que ele encontrará forma de retorno das feridas que me causou. Eu só quero o retorno de mim mesma. De quando eu não estava traumatizada pelo seu toque truculento, pelas suas palavras distorcidas e dissimuladas. Queria de volta o sorriso sem o peso dessa escolha que ainda terei de fazer. Ando aprendendo que não só tentar voltar no tempo é idiotice, como tentar esquecer o passado é apenas trabalhoso e nada satisfatório. Eu abraço esse mergulho no tempo. Procuro revestir minhas feridas com a força que tenho. Porque você pode tentar se enganar sobre tudo o que tem feito. Mas você também não pode voltar ao tempo, e não me resta dúvidas de que sua mente ainda é muito mais sombria do que a minha. Apesar de tudo. Apesar de tanto tempo.

Praeter Amare

Amar alguém de longe é uma tarefa árdua, vazia, solitária… amar o que é lembrança enlouquece, odiar o que não se pode mudar adoece. É nesse espaço tempo que as coisas tomam lugares jamais antes preenchidos. Quando tudo muda, já não há chance de reparo, mas existe aquilo que nunca muda. Sentimentos, sendo atemporais, destroem as partículas da mente que tomam decisões sobre os atos. E sentimentos sobrevivem ao tempo, distância, mas não ao caos. Quando caos é escolha, o corpo sobrevive, mas deitado em profundo escuro e vazio do tempo. Distância e tempo de mãos dadas carregam o corpo, que levita mesmo com o peso das dores que lhe comem as entranhas. Sobreviver dia após dia. Caminhar, dando um único passo de cada vez. Perseguir o futuro com a esperança de paz. Pode-se deslizar, escorregar, cair, mas nunca correr e nunca caminhar para trás. É por isso que olhar para trás é um ato de coragem, o nobre ato de tomar uma distância que permita enxergar um todo. Sem retorno. Tomar um tempo que permita enxergar sem derramar o ódio pelo passado. As análises do que é possível abraçar completamente agora ao longe, podem ser frutos colhidos de uma árvore antiga, cujo as raízes se tornaram invisíveis de tão profundas.

Nigra Aqua

Ter um nó na garganta é como tentar gritar, as palavras atingirem a parede do céu da boca, e essas palavras ficarem perdidas entre o corpo ferido e a saída da boca. Um nó na garganta quase sempre é ligado a um nó que fica dentro da minha cabeça, que incomoda como um tumor, causando enxaqueca e sonolência. Esses nós têm um ponto de partida no estômago, que regurgita todas as ideias do nó mais alto, repetindo os traumas que ferem a alma. O desejo de gritar é tão forte, que me faz querer expulsar as vísceras, sentir cheiro do meu próprio sangue, nadar no amargo do passado e preencher as lacunas desse meu vazio, me afogando em águas frias e sujas do tempo. Porque lá em baixo eu não vejo, eu não ouço, tentar gritar debaixo da água é como gritar em um sonho. Tentar se segurar na água pra evitar que se afunde mais é suicídio. Talvez meu corpo chegue à superfície quando conseguir repousar. Quando ficar leve e livre de qualquer tentativa de fuga. Eu já cansei de tentar vomitar meus nós pra que alguém me puxe e me salve. É aqui dentro, na minha paz, que aprenderei a respirar de novo.

Thayná Lofiego

Se eu pudesse construir um mapa da minha mente ou tirar uma fotografia dela

Eu preciso parar de pensar O mundo muda a cada volta e nada volta a ser igual But this middle finger’s free as a bird Isso ainda dói Eu preciso terminar isso Why’d it go wrong when it should have gone right Não confie neles Meu coração vive cheio de amor e deserto Que dia é hoje? Enlouquecendo para se curar Eu preciso terminar meu TCC Meu pai morreu Eu estou cansada All my sins need holy water Fragilizada Eu não deveria ter faltado Ninguém acreditaria em mim Quero conseguir dormir Será que eu ainda estou machucada? Que dia é amanhã? This time you pulled the fuckin’ trigger Eu preciso sair de redes sociais O sol daquele dia Essa terapia precisa dar certo Lembra de mim quando as coisas não estiverem boas Eu quero me mudar daqui Sweet, sweet girl dreamed some day she’d be a writer Meu pai morreu Que dia foi ontem? Eu preciso terminar meu TCC ‘Cause I’m sick of losing soulmates Por que eu não me organizo melhor? Do you wanna start a cult with me? Como eu vou fazer aquele trabalho? Meu pai morreu Eu não estou limpa o suficiente A defesa é automática You can’t turn back the hands of time O que é humor pra você? Aqueles dias no meu sofá Seus olhos Seus cabelos Seu cheiro Eu preciso ser produtiva Just ‘cause you’re right, that don’t mean I’m wrong Emitir as notas Eu estou de novo no ônibus Quando eu vou conseguir me organizar? A vontade seria o princípio fundamental da natureza, independente da representação, não se submetendo às leis da razão O que eu quero? Meu pai morreu We laughed a little, cried a lot Eu preciso fingir que está tudo bem Onde eu vou morar ano que vem? Words that we said that we didn’t mean Eu estou cansada Preciso treinar mais canto Que dia é hoje? Falar sobre persona, sombra, individuação, melhorar espiritualidade e religião Fazer discussão e conclusão Data de entrega Eu estou cansada Data de entrega Final de semana Leavin’ you was fuckin’ harder than sawing off a fuckin’ body limb Eu não posso descansar agora Que horas eu acordo amanhã? Por que ele não se importa mais comigo? Preciso terminar meu TCC Eu queria atenção Essa terapia tem que funcionar Eu não quero viver esse final de ano Acordar do seu lado era muito bom But something in my mind’s not making sense Eu estou traumatizada Eu preciso dormir Foda-se as fotos delas Minha dívida é com alguma coisa dentro de mim Meu pai morreu Eu preciso trabalhar Que dia é hoje? Eu adoro aquela professora Eu não aguento mais Eu sinto falta dele, mas não posso voltar Eu quero dormir Só perco tempo aqui Eu fico triste por um segundo, no mínimo, todos os dias Eu preciso terminar meu TCC Make them wonder why you are still smiling Eu não aguento mais Cadê ele? Eu preciso estudar O sonho que eu tive com o abraço dele Tudo muda Que dia é hoje? Meu pai morreu Ele não se importa mais Espero que faça calor I just wanna use your love tonight Tudo isso é ilusão Quando eu vou terminar meu trabalho? Eu estou voltando de novo pra casa sozinha Eu esqueci de comer Eu vou ser produtiva hoje Your twisted mind is like snow on the road Batom Vermelho Cigarro Meu pai morreu Eu vou andando Eu consegui chorar Eu odeio ele What doesn’t kill you makes you wish you were dead Eu estou morrendo de dor de cabeça Eu bebi demais de novo Ele não cala a boca Eu não consegui fazer nada da faculdade Não sei se peço desculpas Hoje é domingo Se eu me cortar com muita força, essa dor passa? Com que roupa eu vou? Preciso trabalhar amanhã Eu não tomei meu remédio We might have loved each other too much Eu preciso de ajuda Não lembro o que tenho que fazer essa semana Eu preciso parar de beber Eu não quero mais sonhar com ele Já era pra eu ter terminado meu TCC Eu podia morrer agora Não quero mais sentir tanto ódio Alguma coisa me deixou feliz essa semana, mas eu não consigo me lembrar Eu preciso terminar essa merda Isso aconteceu mesmo comigo? Não acredito que ele me machucou Não consigo me concentrar I thought I saw the devil this morning looking in the mirror E se um dia ficar tudo bem? Meu pai morreu e ontem eu poderia jurar que o vi na cozinha de casa Eu deveria ter ficado na faculdade Eu estou com medo Que horas eu tomei banho ontem? Nada disso faz mais sentido Isso dói muito Ainda dói Eu não acredito que isso aconteceu comigo Eu queria que ele me protegesse Eu queria cuidado Isso dói Eu não aguento mais

Sanguinem Somnia

É como se a minha dor de cabeça fosse emprestada. Parte de todo esse corpo que hoje pesa, apenas flutua por cima de todos os processos de cura. O sangue que eu encontrei em contato com esse mundo externo, seca. Cada cicatriz se fecha. E ainda há muito mais carinho pelas dores que foram provocadas pela minha própria insanidade latente. O silêncio é parte essencial da falta, e nesse imaginário, quem menos grita pra dentro de si, menos entende o lado de fora. Não existem passos longos ou curtos daquilo que deve ser vivido. Existe a imensidão da ilusão de tempo. A gente inverte os medos, se inverte, se torna avesso, foca nos maiores prazeres ou sofrimentos. E um dia a terra é jogada, como quando sucumbe o corpo, e se a alma nunca morre, quando e onde conseguirei aniquilar a ideia dele? E uma vez que se vive já não existe lugar no mundo longe o suficiente pra fugir de uma ideia. Uma vez que se sente, já não existe ideia que coloque ponto final nas memórias. E há de se esperar que as lembranças já não carreguem o mesmo sentimento, e eu rompo com tudo, na esperança que minha ilusão de tempo tome conta de riscar as reticências. Eu abafo o silêncio ensurdecedor que sempre toma espaço da minha mente, como uma câmara sem forma, que se torna independente, desligada de um corpo. Flutuando com uma visão dividida, como a de alguém que observa o próprio corpo num caixão.
Todo e qualquer movimento se tornou estático ou, ao menos, mais lento. A visão turva do presente, agora me convida a cerrar os olhos. Como o abajur que cai, se quebra, e desperta os que ficam no quarto escuro.

Thayná Lofiego

(12.09.2019)

Era pra ser e não foi

Dos sonhos que jamais realizaremos. Das inúmeras coisas do meu dia que terminarão não compartilhadas. Da espera pela sua chegada que será infinita. Dos filmes que nunca vimos. Dos planos eternamente adiados. Das noites que não estaremos juntos. E músicas que não serão ouvidas. Dos bares aos motéis da cidade que não conhecerão nossa risada. Do último beijo que eu não me recordo. Das ideias trocadas. Das coisas que surgirem e jamais serão de seu conhecimento. Da dúvida à falta. Do desejo ao medo. Do quase “sim” que infelizmente, por sorte, foi “não”. Do som ao silêncio. Da esperança ao fim. Do brilho à escuridão. Do que era só o começo. Do que não deveria doer. Do que não era cobrança. Do que eu não deveria sentir saudade, mas vou. Do que me testa. Do beijo mais significante de toda uma vida. Do que eu sei que é mentira. Do excesso de entusiasmo à falta de atenção. Da amizade corrompida. Das viagens que nunca viveremos. Da segunda chance. Dos jogos falsamente perdidos. Dos copos na mesa. Das roupas ao chão. Da fragilidade latente. Do mau uso da inteligência. Do romantismo à manipulação. Da lágrima ao vento. Da desculpa ao adeus. Do sol refletido nos olhos. Do sorriso ao olhar ensurdecedor. Dos ganhos às perdas. Das alianças ao anel perdido na gaveta. Do pai ao filho. E da filha ao pai. Dos segredos confessados. Do âmago da família ao berço. Dos cabelos à pele. Da excitação ao susto. Do justo ao desregrado. Do frio ao calor da pele. Da insegurança ao orgasmo. Do proibido à liberdade. Da proteção à violência. Da alegria à depressão. Do auxílio à dependência. Da dificuldade que se liquidou. Das fotografias apagadas. Da confiança nunca construída. Do pedestal imaginário ao limbo. Das carícias ao açoite. Da rotina à perda. Do pedido à traição. Da ânsia à fumaça. Da felicidade ao caos. Do nascimento à destruição. Do que até já foi sonhado. Do que poderia ser premonição. Do inconsciente ao ato condenável. Da gentileza à amargura. Dos presentes à ofensa. Da boa vontade à falsidade. Da importância ao vazio. Do que eu queria que fosse tudo, e acabou sendo nada. Do que eu jamais saberei. Do que devia ter sido amor. Do que poderia ter sido.

Do que era pra ser e não foi.

Do que era pra ser a última tentativa, a primeira certeza. Acabou se tornando a maior solidão compartilhada.

Your future self is watching you right now through memories

Todas essas coisas me remetem à mesma lembrança. Àquela mesma sensação. Eu criança, e só poderia sugerir que eu tinha por volta dos sete anos de idade, mas sem nenhum tipo de confirmação ou dado a acrescentar que pudesse justificar. Mas eu sinto que por volta dos sete anos, no sofá de minha casa, sentada enquanto algum jogo de video game esperava minha real intenção de continuar a me aventurar… E aquela luz que entrava pela janela, do sol no final da tarde, que faz parecer que despedidas possam ser confortáveis e amenas, ao mesmo tempo que convida a ser refletida e adorada entrava na minha sala, sem nem ao menos permitir que seu calor tocasse minha pele. Mas eu estava ali, envolvida pela luz e sombra, pelo clima, pela sensação, que de tão forte, ainda pode ser revivida ao pensar em me recolocar naquele lugar do passado.
Sensação de segurança essa, que em toda dificuldade me convida a relembrar. É quase como se aquela criança ainda existisse em mim, enquanto não existe mais no mundo. É como se naquele momento eu tivesse tido o mínimo de conhecimento de que eu viveria inúmeras coisas das quais eu não gostaria na vida. E nos momentos de dor, eu converso com aquela criança. Nos momentos tristes, alguma coisa me faz querer contar a ela que a vida não será fácil, e que ela então, deveria guardar bem na memória aquele segundo de paz. Mas de alguma forma eu sentia isso, quando criança. E de alguma forma, é esse exato instante no qual o permaneço ao querer negar a minha realidade atual. Talvez eu tenha conversado comigo sobre coisas que eu nem imaginaria que aconteceriam.
E o desejo de querer ser aquela criança. De não ter feito tantas escolhas, de não ter sido machucada ou ter machucado da forma que aconteceu. Eu desejo poder ser alguém que não conheceu tantas pessoas. Eu desejo ter o mínimo de paz que aquela criança tinha. Mas depois de tantas coisas que eu confessei a ela, eu não poderia dizer se a paz continua ininterrupta.

Thayná Lofiego

Giant Steps

Há meses não houve tentativa de descrever o intraduzível. Não houve página branca, palavras desorganizadas correndo por cada fluxo de pensamento e memória. Não houve o esquecer o mundo lá fora, zelar pelo pedaço de vida que atravessava minha pele, como o toque de quem reaprende a caminhar. Há meses não houve nada além da falta.
Anos sem qualquer coisa que interrompa o silêncio, produto de uma mente inquieta. Anos de uma inquietação tranquila, de luz sem calor, de escuridão confortável, de uma ausência tão presente que abraça, acalenta, mata e também morre.
Mas eu nem ao menos quero entender o que te trouxe aqui. Eu não quero contar os dias, medir esforços, calar o que meus olhos tentam dizer. Eu não quero explicação, não quero nada além do que eu já tenho: incerteza. Ainda que, em alguma esfera, em algum lugar dentro desses passos cobertos por risadas despreocupadas, exista uma certeza não palpável e multifacetada. A certeza de que o contorno do seu corpo continuará me convidando a ser uma extensão dele. A certeza de que é muito fácil agora quebrar meus padrões e esquemas de defesa e solidão. Certeza de que eu quero ouvir sua voz através do seu peito nu. Certeza de que as suas palavras são caminho para as minhas. Certeza de que eu não sei o que significa tudo isso, de que eu ainda estou limitada a compreender essencialmente como caminhamos a passos gigantes em curto período de tempo. E nem o tempo já é o mesmo. Talvez nem precise ser. Ainda assim, existe a certeza de que o tempo é agora, e o momento não poderia ser mais acertado.

Hoje é dia 28 de Fevereiro.
Hoje eu estou preocupada com o fato de não ter dia 29 de Fevereiro. Um dia que eu poderia contar e simbolizar como “um mês que meu pai faleceu”.
Eu pensei nisso desde a semana passada. Eu pensei nisso como algo ridículo. Algo tão ridículo quanto a minha vontade de que meu pai visse eu me formar na faculdade.
O mundo é imenso e muito maior do que a minha capacidade de mensurar qualquer coisa. E ainda assim, não existe lugar nesse espaço tão imenso que eu possa recorrer pra matar a vontade de vê-lo, tocá-lo ou ouvir sua voz.
Quando meu pai não estava contente, ele conseguia gritar de uma forma que as paredes de casa tremiam. Isso dava medo. Mas o silêncio hoje, me apavora! E o medo das coisas que eu posso sentir ou fazer são ainda maiores.
Há exatamente um mês atrás eu pensava, durante o dia todo “amanhã eu vou entrar no hospital, parar do lado do leito dele e dizer ‘você sempre esqueceu o dia do meu aniversário, mas hoje eu estou aqui pra te lembrar’ e dizer ‘hoje é meu aniversário'”. Isso nunca aconteceu.
Nesse meio tempo eu tento encontrar força, pq não é possível matar a saudade, como não foi possível dizer que era meu aniversário e não é possível criar um simbólico 29 de Fevereiro.
O vazio fica cada vez maior.

Não existe título pra isso

De qualquer um dos mais de 300 dias do ano, hoje, eu completo 24 anos e meu pai completa uma semana na UTI. Queria ser uma dessas pessoas que não se importa muito com o próprio aniversário, mas o tempo tem sido um professor e tanto. Com 15 anos eu fui diagnosticada com uma doença autoimune, eu descobri que não voltaria a ser atleta e ficaria, pelo menos, 6 anos acompanhada por um tratamento doloroso. Quando se tem 15 anos, 6 anos é quase metade da idade que você tem. Quando se tem 15 anos, tudo parece que não vai ter fim. Depois de longos 6 anos, eu precisei cuidar dos resquícios da doença e do próprio tratamento, eu precisei olhar mais fundo e admitir que a depressão estava ali todos esses anos. Eu tive que enfrentar a mim, mais uma vez. Com 23 anos eu senti que renascia, eu senti deixar grande parte de todo aquele sofrimento pra trás. Eu estava pronta, de braços abertos pra tudo que o Universo me reservasse aos 24 anos. E meu mundo começa a desmoronar, mais uma vez. Eu nunca tive a necessidade de aparentar estar feliz aqui, porque as coisas que eu colho simplesmente sendo humana nessa rede de aparências, são muito mais valiosas que essa máscara quase obrigatória.
Eu aprendi a não ter vergonha de quem eu sou, da minha sensibilidade exacerbada, da intrínseca necessidade de correr com as palavras quando não cabe mais nada aqui dentro. Eu aprendi que eu estou tão suscetível a erros quanto quem errou comigo, ou quem eu julguei. Eu aprendi a ter humildade e aceitar que existe algo superior a mim. Aprendi a engolir meu ego quando entendi que as coisas nem sempre serão como eu quero, mas que elas são exatamente como devem ser e que resistir é tolice. Aprendi a sangrar de peito aberto e agradecer pela dor, agradecer da forma mais sincera tudo que a dor já me ensinou.
Poucos dias atrás, eu fiquei do lado do leito do meu pai, eu me lembrei que no último dia que ele esteve em casa, indo pro hospital ele me pediu pra orar por ele. Eu não oro, não da forma convencional. Mas eu orei, naquele momento enquanto tocava seus cabelos. Orei em silêncio e de olhos fechados, ele chorou. O Universo sempre teve uma forma engraçada de conversar comigo. Ter meu pai nessa situação me fez questionar muito sobre o que é vida, o que é vida quando você está sendo amparado por máquinas? O que é vida quando você não responde verbalmente, quando não consegue segurar a mão de alguém? Quando você precisa de ajuda pra respirar? Quando aquela lágrima caiu, eu entendi. E entendi que nós somos seres transcendentes sim! Entendi que amor… amor de verdade é a coisa mais valiosa e poderosa que nós somos capazes de conceber.
Tudo o que eu quero hoje, é ser alguém melhor. Alguém melhor do que eu fui com 15 anos, alguém melhor do que eu fui ano passado, alguém melhor do que eu fui ontem. A vida não tem sido tranquila, eu venho lutando diariamente por anos. E é com a maior sinceridade que existe e cabe dentro de mim que eu agradeço por isso!

* Eu escrevi esse texto ontem, um pouco antes de dormir. Eu só mudaria o começo… De todos os mais de 300 dias do ano, meu pai, com toda sua força e todos os valores, sendo uma das pessoas mais incríveis que esse mundo já conheceu, deixa a maior herança que qualquer ser humano pode deixar. No dia do meu aniversário, meu pai descansa! Que todo nosso amor possa guiar seu caminho daqui em diante! ♥️

Que bom que eu te faço feliz

Tive um breve sentimento sobre querer mudar padrões de escrita e automaticamente enfrentar um confronto da minha autenticidade. Percebi tão de repente o quão intrínseco estava, para mim e tudo o que faço, a mudança. Nós criamos uma forma de medir o tempo na tentativa de enxergar, tornar mais palpável e compreensível toda a mudança que nos cerca e que nos preenche as vísceras. E foi nesse escuro caminho dos anos que raios de possibilidades nos guiaram. Tenho pensado muito sobre escolhas, sobre não ter ideia do há por detrás de uma porta e no quão frágil é esse segundo de atitude. Quantas dessas abrimos e quantos caminhos jamais conheceremos das que deixamos pra trás. Quantas possibilidades desconhecidas se tornarão arrependimento? Quantos fardos a mais uma mente pode carregar? Quantos sentimentos estarão falsamente escondidos atrás das outras oportunidades? Começo a cantarolar letras de músicas que dialogam comigo sobre esse padrão, esse padrão de manter constante mudança… Aqui está o padrão de que nunca deixarei de ser constante mudança.
Ainda que sejam os mesmos medos, que evite olhar para o passado e apesar do constante peso que mantém meus pés firmes nesse chão, alterar o passado nunca será escolha. E continuo a desejar que minha mente não crie novas histórias quando tudo o que meu corpo precisa é descanso. Eu abro mão de tudo agora, de tudo que resisto a aceitar, de perseguir meu próprio passado como se pudesse descobrir brechas que o modifique… eu abro mão de voltar, porque nunca tive essa escolha e escolho deixar de sofrer diante do nada. Eu escolho mudar.

Domenicque II

Parte I

― Domenicque!! Está perdendo a audição junto com seus pulmões? Larga isso e venha até aqui!

A voz vinha a uma distância suficientemente boa das minhas costas para me trazer de volta à realidade, mas não o bastante para me assustar. Notei que a chama do cigarro já estava tão próxima dos meus dedos a ponto de arder minha pele, apenas soltei o que restou dele, num movimento leve e sem retirar meu calcanhar do chão, pisei naquela bituca. Dei um breve sorriso na direção de Augusto, o qual devo ter ignorado nos últimos segundos mas que, felizmente, por isso, matou a esperança de estender aquele diálogo insuportável. Me levantei da pequena escada que ligava o jardim à varanda da casa do velho. Alguns metros dali minha mãe me fitava com uma expressão impaciente e quase furiosa, o que seria completamente natural, não fosse o fato de estarmos num velório. Parei de pé na ponta da escada, guardei minhas mãos nos bolsos de uma jaqueta jeans velha. Minha mãe estava parada segurando a porta com uma das mãos, a outra apoiada na cintura do lado que o corpo pendia, jogado todo o peso do corpo em uma perna só, fazendo com que apenas o salto do outro sapato encostasse no chão. Antes mesmo que eu pudesse começar a andar, caminhou até mim.

Minha mãe era uma mulher que carregava cansaço demais, mais do que seria natural para os seus 39 anos. Tinha pele clara, exceto ao redor dos olhos; seus cabelos não eram tão hidratados, o que a própria cor loira artificial explicava; não era extremamente magra, mas seu corpo enfatizava alguns ossos, até mesmo ou talvez, principalmente os do rosto, o que a mantinha com a aparência relativa a apetite ou só escassez de alguma coisa.

― Eu não tenho o dia todo, você precisa ver algo! ― disse enquanto segurava meu braço com delicadeza e caminhava comigo até a porta ― Aliás, não acredito que voltou a fumar aquilo! ― olhou por cima dos ombros ― E quem é aquele rapaz com quem você conversava?
― Augusto, ele estuda comigo, mãe…
― O que ele está fazendo aqui? Ele conhece o Sr. Hélio? ― se corrigiu um segundo depois, como se faz com uma recém morte ― Conhecia…?
― Eu não sei… ― não me recordava de nenhum momento que Augusto dissera algo sobre o velho ou que possivelmente teriam se conhecido ― Na verdade, eu acho que não.
― Ah, e nem me faça começar a falar sobre… isso é roupa para vestir hoje? ― continuou como se nem tivesse me ouvido.

Já estávamos dentro da casa do velho, na cozinha havia um grupo pequeno sentado em volta da mesa, duas pessoas de pé encostadas na pia conversando. Todas elas viraram os olhos na minha direção rapidamente, desistiram como se não houvesse nada ali e em uma fração de segundos, quase como se tivessem ensaiado, voltaram a me fitar. Eu podia sentir a atmosfera naquele instante, como se nem dizer uma única palavra aquelas pessoas pudessem gritar contra mim o tamanho do estranhamento em ter minha pessoa parada naquela cozinha, com minhas calças jeans, um tênis que estava comigo a tempo o bastante para contar uma história só pela sua aparência, uma de minhas tantas camisetas brancas sem estampa e uma jaqueta jeans, a qual nunca soube como fora trazida até meu guarda-roupa.

― Tá vendo? ― minha mãe desapontada por estar certa sobre minha roupa inadequada.

Minha mãe seguiu me conduzindo até um hall que separava a cozinha da sala de estar. Me parou com as duas mãos dessa vez, me encostou gentilmente contra parede como quem iria me contar um segredo. Espiou na direção da sala de estar de forma nada sutil, retornou a me olhar com semblante misterioso.

Continua…

Sobre resignificação da bebida alcoólica

Bebida alcoólica sempre esteve presente na minha vida, mesmo antes de eu ingerir um gole sequer. Esteve presente também em um contexto maior, antes mesmo de eu nascer, tendo (nas duas partes da família) parentes próximos alcoolistas. Raras as vezes que as festas de família não incluíam bebidas. Com mais ou menos 4 anos de idade, eu quase virei um copo de whisky pra dentro da minha boquinha, que mal suportava o gás do refrigerante, o que foi piada durante muito tempo. Mas era evidente que eu tinha uma curiosidade instalada, que eu, honestamente, não seria capaz de distinguir e identificar quando começara. Eu me lembro que cerveja era uma bebida típica nos finais de semana em casa, nada em excesso, mas o suficiente pra despertar em mim uma vontade de experimentar aquela bebida proibida que minha mãe usufruía enquanto cozinhava. E que fique claro, eu não estou e não acusaria meus pais ou parentes como culpados da minha história com relação ao álcool. Acredito que o ambiente tenha sim favorecido de alguma forma, mas fica claro que intrinsecamente isso já estava em mim e que, se tornaria minha responsabilidade, cedo ou tarde, aprender a lidar com isso, tendo em vista que é uma droga lícita presente em vários outros cenários (e mais tarde ainda aprender a lidar com as ilícitas, mas vamos manter o foco aqui).

E quando você realmente começou a beber? Por incrível que pareça (e pode não parecer relevante, mas eu espero conseguir explanar mais adiante), eu tive contato com cigarro antes de efetivamente ter bebido o suficiente para ficar bêbada. Meu pai era fumante, então o acesso ao cigarro era muito fácil também. Eu fumei a primeira vez com 11 anos e o mais “engraçado”, é que eu tanto era uma criança, que em um final de semana eu roubei um cigarro do maço do meu pai, escondi em uma caixa de boneca, e quando o final de semana passasse, eu finalmente estivesse sozinha, eu experimentaria. Bom… eu ODIEI cigarro! Ah, então você não fumou mais, certo? ERRADO! Eu fumei na tentativa de fazer meu corpo se acostumar com aquilo. Mas o texto “néra” de bebida? Sim, mas já identifiquem uma CRIANÇA procurando por um passatempo meio esquisito, que vai fazer sentido (pelo menos, pra mim, faz).

Então, mulher? Quando você começou a beber? A primeira vez que eu fiquei bêbada foi com 16 anos. “Nossa, Naná, jurava que você ia falar uns 12 KKK”. Então, mas lembra que eu tava ocupada lá tentando gostar de cigarro? Cigarro me decepcionou drasticamente. Mas a primeira vez que eu bebi litros de cerveja, eu me senti no paraíso! O fato de eu não ter conseguido o que eu queria com cigarro, fez aumentar muito minha expectativa com relação à bebida e consequentemente, minha satisfação com a mesma. Eu nem sabia o que eu procurava com cigarro, mas eu queria saber o que levava as pessoas a fumar. Eu não sabia o que esperar de bebida, mas queria entender porque usavam tanto. E eu percebi que a bebida me tornava menos tímida (e eu era muito), mais alegre, mais sociável, divertida… então a bebida se tornou uma oportunidade de uma vida um pouco mais animada…

Eu percebi que nem tudo eram flores nos meus dois primeiros relacionamentos amorosos. No primeiro, eu já tinha tomado um pouco de consciência do quanto exagerar na bebida me fazia mal. Então foi a minha primeira tentativa de não beber mais: não beber porque meu namorado não gostava. É um pouco mais complexo do que isso, mas eu me convenci de que estava fazendo isso por outra pessoa (e pra não acabar sozinha). E eu não sei se eu preciso explicar porque isso não deu certo, mas vamos colocar dessa forma: qualquer coisa em mim que me fazia beber em excesso, estava em mim e não no outro, logo, tentar parar de beber nessas circunstâncias era inútil.

Meu segundo relacionamento foi um pouco mais conturbado, eu agora não só tinha consciência do efeito do excesso de álcool em mim, como me deparei com uma agressividade e sensibilidade bem diferentes do que quando eu estava sóbria. Isso não acontecia (ainda) no contexto “família” e nem “amigos”. Eu era (e ainda sou, um pouco, por mais que não pareça) extremamente travada no que diz respeito a externalizar sentimentos, fosse verbalmente, fosse com qualquer tipo de demonstrações, etc. A bebida era um caminho de conseguir expor meu descontentamento sobre aspectos do meu relacionamento, que eu não tinha ainda descoberto ferramentas para lidar ou discutir. Minha imaturidade emocional adicionada à bebida resultou em caos, por vezes. Despertou em mim uma agressividade descontrolada em momentos inoportunos, auxiliou com que eu desenvolvesse um sentimento de vitimismo (porque eu não me responsabilizava pelas coisas que eu expressava bêbada, não era “eu”) e gerou muita confusão sobre só conseguir acessar alguns sentimentos com uso de álcool.

Eu também criei o hábito, bem cedo, de beber sozinha. E se bebida era pra me fazer socializar, me tornar menos tímida… para quê beber sozinha? E aqui foi onde o problema maior se instalou (eu recebi um comentário bem pertinente sobre os storys em que eu trouxe esse assunto à tona, de que não é o vício em si que leva uma pessoa a cometer suicídio, mas que o vício é um aspecto sintomático de um problema maior, que eu concordo completamente e é isso que eu tenho em mente como objetivo de contar tudo isso). O beber sozinha me trouxe a ideia de que eu precisava de algo externo (no caso a bebida, mas poderia ter sido o cigarro, poderia ter sido maconha, outras drogas, poderia ter sido café, açúcar, carboidrato) para me sentir bem comigo. Eu conseguia acessar todos aqueles outros sentimentos, ou conseguia afastar outros, a bebida era útil para relaxar meu corpo e minha mente de coisas que eu preferia evitar trabalhar em mim. Nessa época eu já tinha sintomas de depressão, mas eu estava longe de admitir a mim. E quando eu falo sobre a dificuldade em admitir alguns comportamentos, é porque existia um bloqueio enorme em identificar sentimentos e pensamentos extremamente autodestrutivos. Eu sentia que eu devia ser mais bonita, mais inteligente, mais poderosa, mais magra (talvez eu escreva sobre isso um dia), e beber sozinha era uma forma de tentar calar todos esses pensamentos, afastar partes minhas de mim, não entrar em contato com coisas que me assombravam. E eu aprendi que não dá pra fazer isso. Isso cresceu tanto durante anos, até eu realmente cair em uma depressão mais forte, onde nem a bebida podia me fazer relaxar, nem por um segundo.

SE VOCÊ JÁ TEVE DEPRESSÃO E/OU IDEAÇÃO SUICIDA, ESSA PARTE PODE SER UM GATILHO, ENTÃO NÃO LEIA. PULA ESSE PARÁGRAFO.

Eu pensei muito, mas eu não conseguiria escrever sobre o dia que eu tive ideação suicida, mas eu posso descrever um pouco sobre o quão assustador é, e o quão gradativo foi. E claro, como a bebida se estabeleceu nessa conjuntura. Eu fiquei, pelo menos, 6 meses estranhando muito a minha própria imagem, pensamentos e comportamentos. Era como não conseguir acordar de manhã, levantar mesmo assim, fazer tudo no automático, me cobrar incessantemente por isso, literalmente ver o mundo com menos cores, não sentir entusiasmo com nada, conversar por praxe, rir por conveniência, não querer voltar pra casa e junto com tudo isso, me preocupar muito com tudo e ficar extremamente estressada com absolutamente tudo que saia do meu roteiro de dia “normal”. Eu tinha cada vez mais pensamentos de que minha vida não tinha importância, porque seria tudo automático até eu morrer, então, que eu morresse logo. E eu me convencia com “tá tudo bem, eu não vou me matar, só que eu não me importaria se eu morresse hoje”. E em outros momentos “mas se eu quisesse me matar, como eu faria?”. Nesse momento, eu planejava minha própria morte sem nem me dar conta. Eu comecei a beber muito. Muito mais do que o meu normal, que já era muito. E vale dizer também, que durante todo esse tempo, inúmeras coisas aconteceram pra que isso se agravasse. Pensamentos como esse que só me ocorriam uma vez na semana, começaram a aparecer mais vezes. Mais ideias sobre meu próprio suicídio surgindo enquanto eu escovava os dentes, tomava banho, caminhava para o trabalho, ia dormir… Até o dia que eu comecei a sonhar com a minha própria morte. Eu postava em redes sociais músicas como Mad World “The dreams in which I’m dying are the best I’ve ever had” (os sonhos nos quais eu morro são os melhores que eu já tive), Migraine “Sundays are my suicide days” (domingos são meus dias suicidas), e aqui fica um adendo: se vocês virem alguém postando qualquer coisa desse tipo, fiquem atentos sim! Nossa mente pede ajuda mesmo sem a gente notar, de formas variadas. Sonhar com a minha própria morte foi o ápice do fundo do poço que eu estava (isso não faz sentido, eu sei). Eu fui tomada por um medo imensurável de mim mesma. Eu era ali, a maior ameaça pra mim. A pior companhia também. Eu bebia. Às vezes eu bebia pra matar essa parte horrível de mim. Às vezes eu bebia pra matar a parte boa.

Eu não estou me expondo à toa, mas tudo que eu vivi e o que eu tenho observado de pessoas próximas ou não a mim, é o prazer do descontrole quando se está sob efeito de alguma substância. É o precisar usar algo para relaxar o corpo, quando eu desconheço formas saudáveis de lidar com os meus próprios conflitos internos. É o querer fugir do fato de que eu preciso mudar de emprego, de relacionamento, de costumes, mantendo sempre presente alguma coisa que me afasta desse enfrentamento. É o tornar natural a dor de cabeça do dia seguinte, os claros sinais do corpo de que aquilo é demais, de me prejudicar, me ferir a troco de uma vida falsamente mais leve e divertida. E quando tudo isso fica demais e não dá pra fugir, existe um risco eminente de tentar usar álcool na atitude suicida. E esse é o maior motivo pelo qual eu quis escrever sobre álcool específicamente.

Sobre resignificação.

A primeira vez que minha psicóloga me disse isso, eu quase ri na cara dela, o que não ia ser muito agradável pra ninguém, convenhamos. Eu achei que fosse só um nome bonito pra “parar de beber”. Eu voltei a tentar parar de beber, dessa vez com menos sucesso ainda. Eu claramente não bebia tanto quanto antes, pelo menos, não sempre, mas eu ainda bebia frequentemente. Era difícil estar em um ambiente com bebida e não beber! Meu “parar de beber” não durava uma semana. E isso aqui vai parecer discurso de convertido da igreja universal, mas não é! Calma! Terapia me ajudou muito, mas ter feito as pazes comigo, trazendo uma fé pra minha vida, foi essencial. E não virei crente, na verdade eu conheci um pouco sobre Xamanismo, e fez sentido pra mim. Mas poderia ter sido QUALQUER COISA, poderia ter sido catolicismo, umbandismo, yoga, música, pintura, poderia ter sido minha própria faculdade, jardinagem, etc. Qualquer atividade ou ritual que te ajude a se conectar com você mesmo, é essencial. Eu conheci a maior felicidade da minha vida o dia que eu consegui entrar em contato comigo, com todas as partes. Que eu consegui me perdoar pelo mal que eu me causei, que aceitei que eu não sou perfeita, que eu realmente me enxerguei e me percebi como ser humano incrível mas também falho.

Uma mulher que eu sigo há muito tempo e que sempre que eu posso, cito nos meus textos, a Flávia Melissa, já contou várias vezes sobre como ela se libertou de algumas drogas recreativas, do quanto isso gerou também mudanças no seu círculo social. Eu sempre tive receio disso, como parar de beber, quando a maior parte dos meus amigos bebe? Como não beber em uma festa ou balada?

A resignificação foi autoexplicativa no momento que eu tive a chance de usar o álcool, em um dia que fugir de mim seria delicioso demais, mas eu não quis! E como chegar nisso? Como eu disse e acreditando na individualidade de cada um, eu não consigo criar nenhum tipo de caminho pra salvação, mas o dia que essa conexão com você mesmo acontece de verdade, ela se torna uma energia que se irradia, é quase palpável. Eu chamei isso de deus interior (o que é só um nome), poderia ser o que chamam de felicidade, de gratidão, de amor. Esse sentimento é como um pilar, é transformar você mesmo no seu próprio lar, estar confortável com quem você é. Automaticamente o mundo todo entra em sintonia. Esse sentimento faz parte de um autoconhecimento (que, no meu caso, eu adquiri boa parte em terapia) que consequentemente eleva também sua autoestima. Com tudo isso mais desenvolvido é extremamente difícil, quase impossível, querer sair disso. Ficar bêbada me leva à uma situação oposta dessa conexão, é quase como me perder dentro de mim de novo. Então, talvez resignificação não seja parar completamente de beber, mas procurar um meio saudável de lidar com o que me faz perder o meu autocontrole, com o que me faz querer ficar distante do que me incomoda em mim e bebida se torna um segundo plano, algo que eu vá usar sem perder a noção do que é limite para mim. Eu estou nesse processo de entender que, eu nunca soube o que era limite, porque eu nunca tinha realinhado a minha pessoa às minhas estruturas física, mental e espiritual (repetindo que espiritualidade não é religião).

Eu não entendi completamente a resignificação, pelo simples motivo de que eu ainda tenho muito trabalho de autoconhecimento a ser feito. Eu ainda escorrego em excessos de álcool, manias, redes sociais, compulsões por comida, etc. Mas isso foi algo incrivelmente novo pra mim, foi estar em um estado de consciência muito diferente de tudo que eu tinha sentido até hoje. Eu consegui beber muito pouco e me satisfazer por gostar do sabor da bebida, eu consegui não beber quando realmente isso me faria muito mal e consegui identificar ter passado do meu limite, em um estado de embriaguez que, antigamente, seria “só o início”.

Vita Lineae

Se estou certa de quem sou, que outros olhos eu precisaria encontrar para ter coragem de ser sincera?

Eu finjo pra mim que preciso me alinhar aos desejos mundanos. Enquanto minha alma anseia por paz.

Onde está meu coração enquanto eu busco, incessantemente, engolir todo sentimento que já não tem espaço lá fora? Eu quase pude ouvir, novamente, o som de sua voz ditando o toque das minhas mãos contra as suas. Eu pude declarar, com toda energia que demanda, o que eu possuo como afeto, enquanto pequena parte remota do passado, do quanto admiro e anseio por teu bem se espalha gentilmente, como também é aceito. Calamidade seria se valor nenhum tivesse, se fosse quase como gritar com o rosto e os olhos fitando a parede fria, numa sala aberta demais pra produzir eco, enquanto o único retorno que tenho, é minha própria voz que suplica ser ouvida por outros ouvidos que não os meus. No fundo é isso. Mas temo que continue sendo essa voz que só existe na minha cabeça, que por vezes se despede como lágrimas, outras sangue… Mas não é culpa tua. A culpa nem é do desejo, ou do medo dele. Toda morte implica mudança. E tudo em que existe vida, incontestavelmente conhecerá o gosto da morte. O que justifica uma vida bem vivida? Talvez afeto. Enquanto penso em vida como um montante de acontecimentos; uma relação, um projeto… basta existir afeto ou é necessário que o conheça? Afeto não demonstrado deve ser como a pele de um abortado, é só metade vida que não conheceu o mundo… Quase um projeto que deu de cara com a morte antes mesmo que pudesse ter voz. Eu pensei que talvez, e só talvez, isso seja se matar lenta e gradativamente. Viver com medo, evitar as rejeições, não ter voz… não ter voz. Não ter voz é afogar a si mesmo dentro de si. Até meu corpo morrer, eu preciso encontrar uma forma ter vida. Talvez seja nessas linhas. E delas não me envergonho nunca. Eu estarei viva enquanto qualquer par de olhos percorrer cada uma dessas linhas.

Thayná Lofiego

Vale Indigentiam

A vida se faz do acreditar nos ventos. Eu sempre senti que algo, além de tudo aquilo que se vê, de tudo aquilo que me toca, poderia transformar grande parte do meu ser em paz.

Eu aguardei, por ora, sentada numa grande janela de uma casa antiga. Por ora, caminhando pelas ruas da mesma cidade que permeio desde que existo. Por ora, contando as horas que faltavam pra dormir. Por ora contando os minutos que me despiam o sono, enquanto o teu nome se espalhava como eco em todos os buracos de meu peito. Eu deveria crer nos ventos. Por ora, eles escancaram a falta de algo que ainda não se foi, como fosse a última vez, que por vezes… simplesmente é. O vento carrega o tempo, leva com ele o peso das horas. Por ora, leva o peso que envolve meu peito pela lembrança de um abraço. Por ora, traz com a leveza de uma correnteza, cada lembrança, sem aviso, como uma tempestade sem trovão que se abre na mente e jorra cada fio de pensamento inundado de sentimento contra meus tímpanos. E as vozes que eu escuto cantam as canções que eu danço sozinha no escuro.

Eu aguardei, por ora, caminhando depressa, tentando engolir cada partícula de ar que me mantivesse viva, que me ajudasse a nadar só pra mergulhar em mais um dia que eu desejaria estar morta. Por ora, sorrindo aos ventos e encharcando minha pele do calor ameno do sol, encarando as lágrimas que eu nunca derramei como provas de missão cumprida, que massageavam meu ego de ternura por cada memória. Enquanto tua pele nem ao menos se preocupava em apagar o calor da minha.

Eu aguardei, por ora, tão próxima ao chão gélido. Por ora, deitada contra as paredes. Por ora, carregando a insônia por todos os lados da cama. Por ora, trazendo peso aos travesseiros. Por ora… eu ainda aguardo. Eu espero os ventos trazerem uma forma concreta de rabiscar um adeus que tu nunca escrevestes. Me ensinastes a diferença entre sentir falta e sentir saudade, teoricamente. Enquanto eu canso de esperar, eu busco ferramentas no universo, que sustentem a solidez de tudo que se petrificou em saudade. Enquanto aguardo, enquanto canso de esperar, encaro o beco sem saída, o medo da falta, construo e moldo a falta do adeus em meios rabiscos confusos e perdidos. Preencho a falta escrevendo sobre o que sei sobre saudade. Declaro meu adeus assim, por ora.

Thayná Lofiego